O amor violeta
"O amor me fere é debaixo do braço, de um vão entre as costelas. Atinge meu coração é por esta via inclinada. Eu ponho o amor no pilão com cinza e grão de roxo e soco. Macero ele, faço dele cataplasma e ponho sobre a ferida."
Adelia Prado
Lacan retoma o tema do amor em Freud para pensar o impossível da teoria. Vai em busca de uma espécie de amor que não se tem e que só funciona graças à proliferação de desvios, delírios e loucuras. Como "um seixo rindo ao sol” o tema do amor em Lacan desliza desde a poética bretoniana até o banquete de Platão, dando lugar ao mito da lamela, ao periquito de Picasso, e outras bizarrices “teóricas” em torno de um impronunciável que se supõe saber.
Um comentário que seja da ordem teórica não convém ao amor, conclui Lacan após ler Freud de forma advertida. Enquanto o fundador da psicanálise buscava no narcisismo respostas para a sua teoria, o outro quer saber da alteridade na paranóia e seus desvios. A teoria do amor na modernidade, ao fazer uso do auto-erotismo como “falta-de-si”, desdobra-se em individualidade à priori como teoria e saber dicerníveis. Teorizar sobre o amor é perdê-lo de vista, assim como amar é perder-se no outro sem teorias.
O amor em Lacan é um sentimento cômico, performado pelo fenômeno erótico que torna indissociável o ato da teoria. É impossível reduzir ao campo da linguagem o erotismo, enquanto no amor cortês a mulher se mantém desde sempre do lado do mal entendido. A relação do amante com o divino, que reconduz ao êxtase pela via do que não se sabe, mostra a outra face do que permanece como incompreensível. Amar é dar o que não se tem para quem não quer saber disso, nos diz Lacan sem saber ao certo o que dizia.
Inspirado em O amor Lacan, de Jean Allouch


























