7 de jul. de 2010

Uma outra história













A terceira ferida narcísica da humanidade retroage à centralidade do universo em Galileu e da própria criação, em Darwin. O homem, também não é senhor em sua própria casa e seu narcisismo está, a partir de Freud, definitivamente ameaçado.

A tentativa de distinção entre o consciente e o inconsciente, sem os préstimos da biologia, dispensa qualquer produção de saber completo e acabado. A consciência também é transitória e sua distinção já não depende da existência de um ego sintônico e acabado, mas um ego que circula livremente nos dois pólos. Possui gradações, como a luz e a escuridão, a vida e a morte. O ego flutua em um mar de memórias esparsas.

Se o material inconsciente é desconhecido, a consciência se utiliza de representações verbais. Mas não dispensa os traços, resíduos mnêmicos da amnésia infantil, recheado de imagens que aparecem também nos sonhos, delírios e alucinações, dependendo do estado. Tudo o que é reprimido é inconsciente, mas nem tudo o que é inconsciente é reprimido, em especial as imagens.

O ego não é coerente, ele mal e porcamente controla o que se encontra dividido entre a projeção de uma superfície – o corpo como imagem – e os restos oriundos de uma pré-história. Cuja ficção constrói objetos e com eles se identifica, impregnando-os de afetos, que tingem, borram e mancham a palavra. Fazendo com que ela seja sempre renovada.

O ego sofre com sua consistência mutável, descentralizada e atemporal, e passa boa parte da vida tentando provar pra si mesmo que ser o centro é a melhor história. Transformar o sofrimento neurótico em sofrimento comum talvez seja aprender a abrir mão do centro em favor da liberdade. Que modifica a história e faz dela uma outra, completamente nova.