VINGANÇA
"Se tu nos espetas não sangramos? Se tu nos fazes cócegas não rimos? Se tu nos dás veneno não morremos? Se nos fazes mal, não devevos nos vingar?".
Shakespeare, O mercador de Veneza
A vingança, uma espécie de justiça com as próprias mãos, funciona como revide à ofensa, diferente de uma outra que teve que ser aceita sem contestação. Um aumento penoso de excitação persistindo a despeito de qual seja a reação, mantém sob suspensão a idéia de resposta adequada ao problema. O desfiamento das teias originárias, manchadas de agressividade, nos aproxima de um desejo arcaico de vingança, cujas bases fantasmáticas conduzem ao irredutível do trauma ligado ao pai como função.
O desejo mórbido de vingança e seu reverso - a autopunição – produzem deslocamentos e evidências contraditórias. Um sentimento hostil endereçado ao pai se confunde com antigas marcas de amor, estabelecendo o instante em que o ego se divide e se entrelaça ao processo de identificação. Como objeto de dominação, ele se oferece igualmente ao risco da destruição no ato da vingança, aonde um pedaço de si se perde, tal qual na mortificação.
Não é possível defender-se de uma agressão de forma suficiente, sendo a frouxidão com que os deslocamentos se propagam o que convoca à emergência do trabalho analítico de elaboração. A linguagem, como substituto à ação, reintegra, reconstrói e revivencia as conexões entre saber e verdade, eliminando as certezas e reconhecendo na vingança inconsciente, repetida e dirigida ao analista, o desnudamento dos afetos e suas repercussões.
Fotografia de Ricardo Beliel - Guerrilha, Amazonas, Brasil
