2 de ago. de 2010

Narcisismo




"... cada um tem o direito de pensar e escrever o que quiser, mas não tem o direito de apresentá-lo como uma coisa que não é".

Freud em A História do Movimento Psicanalítico, 1914

As modificações propostas por Jung, que determinaram seu rompimento com Freud e com a psicanálise, pretendiam a substituição da abordagem sexual por um sistema ético-religioso, destinado a distorcer os achados efetivos e elementares do freudismo. Foi em resposta a esta tentativa de alijamento de sua obra que Freud elaborou, em 1914, um importante aspecto de sua teoria, com o texto da Introdução ao Narcisismo. (Volume XIV, Obras Completas)

A relação erótica com os objetos do mundo versus a utilização do próprio corpo como objeto de prazer sexual estabelecem dois princípios em torno dos quais a libido se fixa: investimento narcísico - quando o próprio ego se coloca como objeto a ser investido e investimento objetal - quando os objetos do mundo se revestem de valor pela libido. Se em determinados momentos o desvio dos investimentos eróticos dos objetos do mundo em favor do próprio ego pode ser benéfico, em outros o excesso de erotização do próprio corpo pode conduzir a patologias graves.

Foi na observação da paranóia de Schreber que Freud reconheceu a introversão da libido sexual como perda da realidade, passando a pensar as dificuldades que este mecanismo produzia na abordagem clínica. Enquanto nas conversões histéricas, o ego apaixonado e fantasioso se presta como instrumento de trabalho, na paranóia o processo mórbido de megalomania e hipocondria fornece aos órgãos do corpo um investimento fantasmático descompromissado com a realidade externa.

O que se quer garantir, em ambos os casos, é a imortalidade do ego à custa de uma realidade sempre suspeitosa, de colorido sexual impreciso. No lugar da fratura que a sexualidade provoca, associada ao desprazer produzido pelo acúmulo de tensão, busca-se a ultrapassagem na ligação da libido aos objetos, que passam a se tornar amados e desejados para além do ego, idealizados em sua perfeição absoluta e insuspeita.

O narcisismo, que gira em torno do ser, do ter sido ou do que gostaria de ter sido, encontra na atitude amorosa a projeção de um ideal que oculta as falhas, as mesmo tempo em que as coloca em circulação. A perfeição de valor e incapacidade de abrir mão do prazer outrora desfrutado visa o atendimento das exigências sem restrições, enquanto o "estar amando" deflagra as desproporções.

A reprodução de sistemas especulativos que visam a eliminação da sexualidade retornam nos ideais de comportamento, ditando regras a serem seguidos de forma padronizada e objetiva. A psicanálise, ao correr o risco da distorção, insiste no apelo à autoria sem abrir mão da investigação.