
“Há uma série de fenômenos de grande importância que não podem ser registrados (ou compreendidos) através de documentos quantitativos, mas que devem ser observados em sua plena realidade“
Bronislaw Malinowski
De que maneira pode-se assegurar de uma intervenção correta, capaz de produzir êxito ao tratamento analítico? A esta pergunta Freud responde em “Construções em análise” (Obras completas, Volume XXIII), aproximando seu trabalho de investigação ao de escavação, feito pelo arqueologista. Como que a procura de um objeto perdido entre os escombros, a tarefa de ambos é a de reconstituir, por meio de combinações e suplementações, os restos que sobreviveram ou deixaram vestígios.
A diferença entre um método e outro, que auxilia na busca de respostas para a pergunta acima, é que a reconstrução em análise, diferente da arqueologia, não é um fim em si mesmo, mas apenas o início. Os aspectos essenciais do material que se está à procura se entrelaçam aos meandros de uma situação falsamente construída - a situação analítica - cuja evolução determina o modo de retorno das conexões e a reconstrução do material reprimido.
Se a determinação da idade dos achados é uma questão delicada que envolve as duas pesquisas, uma segunda diferença apontada por Freud diz respeito ao material, que em análise se mantém vivo, misturando conexões e fragmentos de lembranças com comportamentos atuais, embaraçados ao trabalho analítico. Se ambos – analista e arqueólogo - possuem igual direito de reconstruir esse material por meio de suplementações e combinações, o analista conta com a reação do paciente ao complemento oferecido, que é sempre ambígua.
O analista não aceita o “sim” pelo seu valor nominal, nem compreende um “não” como a impossibilidade de intervir. O material oferecido não se difere em nada de um delírio, importando tão somente o que pode ser fisgado da verdade, na falsidade da relação estabelecida. Confirmações indiretas, reações inesperadas e associações imprevistas indicam que as convicções dependem muito menos da existência de algum material invicto, pronto a ser revelado em um momento específico, do que da dinâmica que em torno do material de análise se cria.
Vista da Baía, Juan Gris, 1912,