1 de jul. de 2011

O sujeito da psicanálise





Em que base se fundamenta o sujeito da psicanálise, dividido ao meio por uma barra? O simples reconhecimento do inconsciente como campo onde o sujeito se apresenta, não é um fato empírico senão pela via do paradoxo: como é possível reconhecer o que se dará sempre depois do fato? Como é possível saber o que se é quando ainda não se está?


O sujeito histórico em Descartes, que ancora sua existência no pensar, faz-se correlato da ciência, como inaugurado e reforçado por ela. O "penso, logo existo" coloca o sujeito numa nova dimensão. No entanto, a divisão que se instala, com Descartes, entre o saber científico e a verdade, inclui doravante a realidade psíquica, um campo aonde o sujeito também “é” mas nem sempre “sabe”. Descoberto por Freud, este saber sobre o inconsciente se vincula ao científico como marca não contingente, mas necessária.


A epistemologia não explica plenamente a existência do sujeito, é o que a descoberta do inconsciente vem nos mostrar. O princípio da realidade, que encontra explicação para os fenômenos em toda a parte, discorda da realidade psíquica, cujo conteúdo também produz efeitos na realidade. Não somos máquinas, a dialética freudiana exige de nós a verificação de um sujeito tomado por uma divisão constitutiva e incontornável.


A questão sexual, como a base de tal discordância, não encontra saída pela via da psicologização do sujeito, incapaz de responder de forma antecipada. A ciência, ao impor sua bateria de significantes – fundamentada em diagnósticos precisos e respostas exatas - exige que eles tenham prevalência, assegurando-se nos efeitos que a significação produzirá. A lógica moderna é uma tentativa de suturar o sujeito da ciência, como um correlato, antinômico e exato. O sujeito, tal como quer a psicanálise, não se sujeitará.

4 de fev. de 2011

Mulheres e perver-cidades



“Se me disserem que é absurdo falar assim de quem nunca existiu, respondo que também não tenho provas de que Lisboa tenha alguma vez existido, ou qualquer coisa onde quer que seja.”

Fernando Pessoa


Um modo histórico de ambiguidade originária, ligada ao excepcional e intenso horror do incesto, resulta na formação de um traço peculiar em todas as formas de organização social: a presença do tabu, associada à possibilidade de transgressão. Um desconcerto irremediável na sexualidade humana se funda pela proibição. A estruturação do mito edipiano, a partir de Freud, traça o roteiro da triangulação erótica - pai, mãe e filho - e suas consequências psíquicas: a castração como punição pelo incesto, o assassinato do pai e o pacto da lei primordial com efeitos imediatos no processo civilizatório. O Édipo se inscreve na lógica das relações e seus arranjos proibitivos.

Dois filmes, Dogville e Narradores de Javé nos oferecem uma disposição acerca dos pactos sociais e suas respectivas leis morais. Os efeitos de exclusão e a necessidade premente da aplicação de métodos punitivos são elementos reflexivos que se oferecem, nas duas ficções, com marcas de funcionalidade no campo das exceções. Graça, na cidade de Dogville, é uma mulher de aparência nobre cercada por miseráveis; Antônio Biá, em Javé, um homem letrado numa cidade de analfabetos. Ambos estão submetidos à um modo de pertencimento localizado na margem da lei, culminando em um estado de exceção plenamente franqueado.

Entre semelhanças e distinções - a começar pela sexual - verificamos efeitos discursivos presentes nos dois personagens, transparecendo a lógica do Édipo nas duas ficções. A presença do falo, como um dilema epistemológico, cria o impasse na teoria, que se dilui diante da tentativa de positivização teórica. O contraste anatômico, no entanto, nos diz Freud, marca a dissolução do complexo de Édipo como possibilidade de execução da castração de um lado e sua simples ameaça do outro. Os efeitos deste impasse lançam suspeitas acerca da diferença entre o nível daquilo que é eticamente normal nos dois modos de apresentação.

“Enquanto nos meninos o complexo de Édipo é destruído pelo complexo de castração, nas meninas ele se faz possível e é introduzido através do complexo de Édipo. (...) corresponde à diferença entre uma castração que foi executada e outra que foi simplesmente ameaçada. (...) Nas meninas está faltando o motivo para a demolição do complexo de Édipo”.(1)

Na trama, os personagens são apresentados de forma distinta. Graça, a personagem feminina, é recebida em uma cidade como uma estranha fugitiva sob ameaça de perseguição, nada sendo dito sobre o seu passado ou suas intenções. Biá, do outro lado da tela, tem sua entrada em cena marcada pela devastação imediata do passado, evidenciando os motivos de sua exclusão. Funcionário dos correios de uma cidade de analfabetos, ele garantia a permanência no emprego escrevendo cartas de conteúdos obscenos, endereçada a outras cidades, colocando em risco a integridade moral dos habitantes. A descoberta do ato resulta na sua expulsão e no ódio abertamente endereçado.

Os critérios de inclusão, nos dois casos, também sofrem distinções. Graça, por razões humanitárias, é acolhida e acobertada por um grupo que exercita, com este episódio, sua filosofia acerca das relações. Um saber estabelecido de forma racional conforma as leis de permanência e aceitação, constantemente testadas e aprovadas pelo grupo. Biá, por outro lado, é restituído ao convívio de modo explicitamente objetivado pela troca de interesses, definidora das regras de aceitação.

As condições de permanência dependem das ações que, quando não executadas, resultam em punições. Os atos punitivos revelam, nos dois casos, a violência contida na subjugação do excluído, no lugar da sua exterminação. Os dois grupos contam com a oculta sede de vingança que a punição é capaz de produzir, sacrificando, nesta troca, parte da sua segurança em favor da ordem estabelecida.

A punição, que se dá pela restituição sob a forma de trabalho, marca uma nova distinção. No primeiro filme ela se apresenta de forma velada, sendo posta abertamente no segundo. Enquanto Graça é incitada a agir espontaneamente, a Biá é imposta tarefa específica, com tempo pré-estabelecido de duração. A aparente recusa inicial aos préstimos de Graça é substituída por um número inesgotável de tarefas, que fogem ao controle e à sua capacidade de execução em tempo hábil.

Graça se submete à lógica de um pacto legal que não conhece limites, ocupando a posição irretocável de cumpridora da lei. O aspecto legal esbarra na fonte agressiva de prazer que escapa à qualquer modo de compreensão, como em um determinado episódio da trama, quando uma criança pede para ser espancada, expondo cinicamente a fantasia de prazer contida na agressividade e seus contornos sociais. A “coisa sexual” reincide na sequência histórica, pelo apelo à servidão do corpo feminino, que passa a ser utilizado de modo vil e repugnante.

A questão da diferença sexual, tomando o filme como fundo aonde se refletem as marcas identitárias, se estabelece pelo tratamento dado à lógica da fantasia. Nas meninas, nos diz Freud, a fantasia masoquista inconsciente representa a atitude edipiana normal, enquanto nos meninos o amor ao pai prevalece. A constituição bissexual toma o processo de repressão como uma escolha possível entre um dos modos de apresentação da sexualidade, direcionando sempre a fantasia de espancamento para a atitude feminina de sujeição.

“Tanto no caso de meninos como de meninas, a fantasia de espancamento corresponde à uma atitude feminina – isto é, uma atitude na qual o indivíduo se demora na ‘linha feminina’ – e ambos os sexos apressam-se em liberar dessa atitude, reprimindo a fantasia”. (2)

O exercício da lei em Dogville, instalado no campo da positividade, toca no ponto da fantasia que é desvelada, reservando destinos trágicos para a organização social. Regida sob a lógica do direito positivo, a transgressão se alimenta pela execução das regras, sem espaço de contestação. As proibições morais e as punições, como consequência, lançam luz sob o “imperativo categórico” do grupo. O cumprimento estrito da lei culmina na insuficiência da lógica frente ao exercício do poder, representado sob a forma de violência pura. A máxima da legalidade conduz ao ‘olho por olho, dente por dente’, como esfera perigosa de delimitação das fronteiras nas ações humanas.

O véu que encobre este terreno incerto da ordem jurídica, em Dogville, resulta no estabelecimento de uma guerra civil legal, que se instala pela via do totalitarismo. Repete os antigos modelos hitlerianos, que elimina categorias inteiras da população, não integradas ao sistema político. A segurança da comunidade é vencida pelo extermínio, como desfecho daquilo que a linguagem é capaz de produzir no campo da razão cínica.

O significado ‘cientificamente’ pensado implica numa relação com a metafísica e com o obscurantismo que ela consolida, pela visada da prevenção dos acontecimentos a partir do sentido. Em Narradores de Javé, ao contrário, a linguagem ganha força aonde o sujeito é marcado pela divisão. Os tropeços gerados pela linguagem estabelecem, neste lugar, a dialética do desejo na subversão do sujeito, não como perdido, mas como dividido em sua ação. Biá resiste à execução da sua parte no pacto, trazendo à tona o ridículo de uma operação legal.

O caráter científico, apontado na primeira trama como possibilidade reflexiva, é ironicamente descaracterizado na segunda, pela via da comicidade. A feiúra de Biá, unida à bizarrice dos seus atos, nos oferece um nítido contraste com a beleza de Graça e seus gestos esteticamente ajuizados. O chiste, que permite o contraste entre as idéias e as palavras, estabelece, na trama de Javé, a possibilidade de relação entre o sentido e a falta, entre a estética e a aberração.

Enquanto o empuxo à agressividade é evidenciado em Dogville, em Javé ele é detido pelos poderes dialéticos do personagem. É sob a máscara da piada que a frouxidão dos dogmas morais se vê ameaçada, como uma séria advertência ao signo em sua posição estática. O chiste aponta para o problema da ambiguidade, cuidadosamente evitado pelo pensamento sério, operando como rebelião contra a compulsão da lógica e da realidade.

Frente à insuficiência de registros localizamos, em Javé, sujeitos prontos a substituir a hostilidade brutal dos acontecimentos pela inventiva verbal, amparados unicamente na lógica da rememoração. A narrativa ganha status de poder na construção do mito e no resgate dos laços históricos, ameaçados de extinção pelo processo de barbárie e desmoralização da experiência.

O apelo à fidedignidade da escrita se apropria no recurso da memória para preenchimento daquilo que falta. A informação plausível, correspondendo à realidade dos fatos, esbarra nos interesses narsísicos que mancham os dados da realidade, com imprecisões mescladas de múltiplas heroicidades. Entre o mito e a verdade, uma trôpega marca de existência constrói um tempo mítido fundante, como forma de resistência à  morte que se impõe aos moradores, sob a forma de catástrofe.

O contraste dos dois filmes se apresenta na sua relação com a lei e as tentativas de fuga que ela oferece. Graça encontra no discurso do mestre a justificativa e apoio para a conduta ideal, transformando sua fuga em um ato racional. A tentativa frustrada revela a traição como elemento contido na trama, enquanto a lógica dos princípios a conduz novamente ao ponto inicial, desta vez literalmente acorrentada.

Biá age por sua própria conta e risco. Devolve o livro em branco com um bilhete anunciando a sua fuga, sendo, do mesmo modo que Graça, recapturado pelo grupo e posto em frente ao modo de inquisição. As correntes que o prendiam ao núcleo de suas ações são por ele arrebentadas, ao denunciar a insuficiência da lógica que tentam lhe imputar sob pressão. Ele se faz reinserido no humano pela via do desprezo, ao afirmar que não existe saída no campo da lógica pura. Isso sim, diz ele, é científico.

O passado de Graça enfim vem à tona, revelando o poder de destruição nele omitido. Os gangsteres que a perseguem e a quem ela é entregue pelo grupo, eram seus aliados da ‘justiça com as próprias mãos’. A ela agora pertence o poder de decisão, argumentando acerca do cumprimento da lei, mascarada de generosidade e isenta de claudicação. Sua arrogância perdoa no outro aquilo que não perdoaria em si mesmo, lhe diz seu pai, aquele que quer fazer dela a herdeira das armas e do poder de destruição daquela cidade. O destino dos habitantes está em suas mãos e ela executa um a um, com a frieza de quem ‘mostra os dentes da irracionalidade’ com a vestimenta da razão.

Javé também não sobrevive ao choque das águas, mas o povo sim. Biá agora torna-se mais um dos desabrigados, carregando debaixo do braço o livro com as páginas em branco. Abraçado à ele caminha em direção às águas que inundam a cidade até o topo da catedral e chora. Em seguida abre o livro e começa a escrever a história de Javé, não pesando mais sobre seus ombros nenhuma lei ou obrigação, mas tão somente o desejo em seu mais duro aguilhão.

A escrita, quando dela ninguém mais cobra valor de documento, incorpora a relação amoral contida no sentido das palavras, reivindicando seu lugar de existência. A obra de arte, que só acessoriamente serve como acervo, posiciona a escrita no intervalo entre o mais além e a insuficiência. A letra, como ajuntamento do que está disperso, se oferece como provocadora de desejos sumersos e recolhimento de restos inúteis, cujo sentido persiste em intensão.

A cidade de Javé tinha sua territoriedade demarcada pela lenda cantada e não documentada, incorporando na escrita o simbólico do corpo que, não importa se vivo ou morto, exige sua inscrição. Dogville, ao contrário, sofre de inscrições rígidas, estranhas marcas espalhadas pelo chão que delimitam concretamente os espaços de circulação do pensamento. As paredes transparentes aos olhos do espectador, em contrapartida, exigem a decifração contida na cegueira dos personagens, obtusos frente à falta de opacidade do significante.

Os efeitos da relação com o significante se presentificam nas duas películas pela impossibilidade de manutenção do discurso científico, tamponador da falta em sua dimensão racional. Pela via do feminino, o intoletável se reduz ao latido de um cão e sua trágica ausência sem índices. Assim Dogville desaparece sem deixar rastros, enquanto em Javé, um homem reduzido ao significante escreve o que não é mais pra ser lido, dando continuidade ao seu processo de inclusão.

Voltemos ao começo do filme: uma roda de homens reunida, tempos depois, houve a narrativa da história de Javé, enquanto em um canto escondido uma mulher – a única em cena – desobedece, com o livro na mão. Depois que ela aprendeu a ler ficou assim, reclama o filho pela falta de atenção. A não-existência da mulher como parte da natureza das coisas, como forma radical de exclusão proposta por Lacan, é o que permite a subversão da lógica no lugar do aprisionamento ao mito da existência sem contradição. A relação significante, que garante a diferença como noção, dá consistência ao mito e objetiva a falta enquanto suporte da existência. Algo se impõe como indecifrável: as cidades e as mulheres. Sobre elas escrevemos.


1. FREUD, Sigmund. (1925) "Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos." Volume XIX, Obras Completas, Edição Standart Brasileira. Rio, Imago, 1976.

2. FREUD, Sigmund. (1919) "Uma criança é espancada - uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais." Volume XVII, Obras Completas, Edição Standart Brasileira. Rio, Imago, 1976.

* Artigo publicado na Revista Mensagem na Garrafa, No. 3 em Junho de 2004, com pequenas alterações.   

10 de dez. de 2010


O amor violeta



"O amor me fere é debaixo do braço, de um vão entre as costelas. Atinge meu coração é por esta via inclinada. Eu ponho o amor no pilão com cinza e grão de roxo e soco. Macero ele, faço dele cataplasma e ponho sobre a ferida."


Adelia Prado 


Lacan retoma o tema do amor em Freud para pensar o impossível da teoria. Vai em busca de uma espécie de amor que não se tem e que só funciona graças à proliferação de desvios, delírios e loucuras.  Como "um seixo rindo ao sol” o tema do amor em Lacan desliza desde a poética bretoniana até o banquete de Platão, dando lugar ao mito da lamela, ao periquito de Picasso, e outras bizarrices “teóricas” em torno de um impronunciável que se supõe saber.


Um comentário que seja da ordem teórica não convém ao amor, conclui Lacan após ler Freud de forma advertida. Enquanto o fundador da psicanálise buscava no narcisismo respostas para a sua teoria, o outro quer saber da alteridade na paranóia e seus desvios. A teoria do amor na modernidade, ao fazer uso do auto-erotismo como “falta-de-si”, desdobra-se em individualidade à priori como teoria e saber dicerníveis. Teorizar sobre o amor é perdê-lo de vista, assim como amar é perder-se no outro sem teorias.


O amor em Lacan é um sentimento cômico, performado pelo fenômeno erótico que torna indissociável o ato da teoria. É impossível reduzir ao campo da linguagem o erotismo, enquanto no amor cortês a mulher se mantém desde sempre do lado do mal entendido. A relação do amante com o divino, que reconduz ao êxtase pela via do que não se sabe, mostra a outra face do que permanece como incompreensível. Amar é dar o que não se tem para quem não quer saber disso, nos diz Lacan sem saber ao certo o que dizia.


Inspirado em O amor Lacan, de Jean Allouch

15 de nov. de 2010

O que não tem governo nem nunca terá...




"Só acabarei esse sonho inédito e louco no dia da minha morte"

Selarón, artista chileno



A família, como organização social que reivindica pressupostos naturais, esbarra na insuficiência do fator genético para sustentar sua legitimidade. Seus vínculos, que se utilizam da linguagem como suporte, possuem um alto grau de plasticidade, com condicionamentos e arranjos que dependem predominantemente de fatores culturais, em detrimento de uma lógica biologizante e determinista.

Subversiva a qualquer fixidez instintiva, a família adquire o caráter de uma organização afetiva com dinamismo próprio, sujeita à novos formatos e novos conflitos, decorrentes do imprevisivel que advirá. A causalidade psíquica - que tem no fator inconsciente o elemento chave de decifração - passa a ser a principal fonte de produção do condicionamento cultural, estabelecendo o grau de perpetuação do que se reconhecerá como legítimo.

Foi por intermédio da análise das neuroses que Freud lançou luz sobre o complexo familiar, reconhecendo nas fixações e repetições a formatação de uma estrutura social que tem na sexualidade sua fonte de ligação mais primitiva. A relação com o conhecimento, a forma de organização afetiva e a experiência com o real colocam o sexo e sua relação com a família no centro de uma disputa permanente entre a realidade e a fantasia.

A filiação, como ponto nevrálgico dessa disputa, passa a ser investigada pelo pai de uma nova ciência, que adota novas diretrizes para o seu pensamento, a partir da premissa fantasística. Filiação e adoção fazem parte do mesmo nó, que tributa à família o peso da indistinção, presentes na ausência e na busca por garantias. A in-certeza paterna que não encontra apoio no campo da biologia, suspende todas as demais garantias exigidas. A família torna-se um fato não conformado à suficiência de nenhum positivismo.

Quadro de Selarón, famoso por sua escadaria da Lapa e por pintar mulheres grávidas.

4 de nov. de 2010

FAMÍLIA




Família! Família!
Papai, mamãe, titia
Família! Família!
Almoça junto todo dia
Nunca perde essa mania...

Arnaldo Antunes



O uso da linguagem, que permite às relações sociais um alto grau de plasticidade, cria a família. A economia e o movimento responsáveis por esta dinâmica fornecem às relações sociais uma variedade infinita de comportamentos adaptativos e diferentes reações à um mesmo valor circunscrito. A existência da família - que depende da comunicação como princípio - revela uma obra cultural de valor fundante e com características bastante específicas.

Novas dimensões de realidade social e vida psíquica, introduzidos pela família, criam, a cada novo núcleo que se forma, uma nova estrutura. Compostas de hierarquias e órgãos privilegiados de coerção - em cujo campo se fundam as bases da formação moral – a família se institui por modos de organização da autoridade, com leis de transmissão ligadas à dimensão da herança e sucessão.

Sua prevalência na educação – baseadas na repressão e aquisição do arsenal materno-linguístico – faz com que ela seja responsável pelos processos fundamentais do desenvolvimento psíquico. No lugar de ser reduzida a um fato biológico ou um elemento puramente teórico, a família supera os limites da objetividade, nos permitindo operar com a noção radical de causalidade psíquica.

É com base na família que os paradoxos se fundam e a diversidade esbarra nos limites do impossível. A família torna-se uma invenção cuja representação nos atinge e cuja constância se confunde com uma hipótese a ser construída. Sua estabilidade provisória, no entanto, produz efeitos definitivos.

Eliane Martins

Foto da família de Freud - 1876

6 de out. de 2010



PSICANÁLISE OU POLÍTICA?


“Todo passo à frente tem somente a metade do tamanho que parece ter a princípio.”

Johann Nestroy citado por Freud em Análise terminável e interminável.


A aposta em um nível de normalidade psíquica absoluta, que impeça qualquer possibilidade de conflito, é uma tarefa impossível. Não estamos livres de impedimentos neuróticos e censurar o analista por não nos ter livrado de todos os sofrimentos, de forma permanente e definitiva, é um equívoco. Qualquer solução de conflito só é válida para uma força específica, devendo ser mantida a ambigüidade que faz com que a dialética caminhe.

A análise capacita o ego a atingir maturidade e força para empreender revisões constantes dos processos. Diferente de um domínio intelectual apoiado em generalizações, regras e leis que tragam ordem ao caos, simplificando o mundo dos fenômenos e falsificando os processos de desenvolvimento e mudança, a análise se propõe a um permanente trabalho de elaboração e novas conquistas.
  
Os estados de transição, muito mais comuns do que os estados opostos e nitidamente diferenciados, são feitos de processos incompletos e parciais, misturados com resíduos antigos. Vez por outra nos surpreendemos com fenômenos residuais ou pendências parciais persistindo lado a lado com o que foi superado, produzindo tensão e desperdício de energia. Mesmo no desenvolvimento normal, a transformação nunca é completa e definitiva.

Tomar a clareza de nossa concepção interna como medida de convicção capaz de assegurar o controle de tudo, é ignorar o jogo de forças internas que lutam entre si, de forma ambígua.  Além disso, despertar conflitos não manifestos ou fora de hora, ou tentar tornar latente o que permanece reprimido, é expor o sujeito ao sofrimento e frustração sob o risco do desperdício. O melhor, sempre inimigo do bom, luta contra a inércia e a solução incompleta. Se não existe uma regra para a ocasião correta, como fazer ladrar os cães sem apelar para o retrocesso, ou para a destruição dos avanços já obtidos? 



4 de out. de 2010


Mais do que reminiscências

O dom de despertar no passado as centelhas de esperança é privilégio exclusivo do historiador também convencido de que os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.

Walter Benjamim, Sobre o conceito de história




A reminiscência é uma forma de recordar o já vivido como um fato consumado, fechado e sem alternativa. Como um lamento histérico, alimentado pelo constante retorno sobre si mesmo e cercado por aprisionamentos e impasses intransponíveis, ela é feita de um queixume insistente, capaz de reproduzir por anos a fio a mesma ladainha. A reminiscência é o que impede o paradoxo e sustenta a fantasia.

Quais são as alternativas de cura diante deste insistente retorno, é a pergunta de Freud faz, ao se dar conta da compulsão à uma monótona repetição, que se alimenta pela reiteração de velhos temas, idéias e lembranças anteriormente vividas. O desdobramento do conteúdo manifesto, pela via da associação livre, reconfigura as velhas tramas ao mesmo tempo em que satura os temas repetidos.

Rodopiar em torno de um ponto cego, ou tentar refazer o mesmo caminho é o que permite a instalação de uma força redobrada de tenaz persistência, como uma exigência de satisfação que não tem fim, marcando a presença de algo impossível. A tentativa de fisgar mais uma vez a satisfação que falta é a causa da insistência, feito a busca de uma estranha felicidade composta de fragmentos da vida infantil.

A reminiscência interrompe o processo dialético, mantendo o sujeito aprisionado à um conteúdo inalterável e de teor ideativo. O trabalho analítico - que se propõe a deslocar o sujeito do campo obscuro de suas fantasias, recuperando a sua capacidade de articulação crítica – possui similaridades com o desenrolar de um processo político. Cujo olhar para o passado, ao se congelar, denuncia o fracasso e impede que o movimento seja mantido.


Fotografia - Soldados com bandeiras vermelhas marcham em direção à Praça Vermelha, em Moscou. A capital russa sediou diversas cerimônias para marcar os 60 anos da vitória aliada sobre os nazistas.

29 de set. de 2010


Hóspedes, turistas ou bárbaros? 




Não é como turistas nem como invasores, mas como hóspedes, que eles podem tomar o ar da cidade, e sem nela se sentirem bárbaros demais.”

Lacan em O Discurso de Roma



O que sustenta as redes virtuais - com seus múltiplos pactos de união - é um tema que nos instiga a repensar a questão do laço social, um antigo e conturbado tema para a psicanálise. Baseadas no escrito à maneira falada - cujo contentamento não se dá na simples precisão do discurso, mas numa sofisticada reconfiguração imagética de quem fala – este modelo de relação ultrapassa a pura reprodução do que se quer transmitir, colocando em cena estranhas tecituras e recentes moedas de troca.

A busca por fontes de informação que não se esgotam, unida à pressão de novas demandas sociais, nos faz pensar no que acontece com a realidade velada pelas transferências e resistências, neste “ocultamento” do objeto, concernido a partir da fugacidade de pequenos traços que o demarcam. O ajustamento de uma fala endereçada ao outro relança a questão do sujeito, atingido nas profundezas daquilo que o presume enquanto existente e ao mesmo tempo puro efeito de linguagem.

No lugar de uma suspensão hipotética alimentada por miragens, cabe aqui o confrontamento com a questão da linguagem, como experiência que prevalece e se entrevê e na qual o sujeito está radicalmente implicado. Na ação da fala-escrita algo se dá a conhecer, com exigências de temporalidade e uma distância inevitável entre o real e o sentido almejado. Nos cruzamentos de linguagem, os sujeitos se formam e se conformam, reconfigurando a cada lance um novo espaço. 

A eficácia do sistema simbólico e a irredutibilidade dos fatos constituídos num registro provisório, colocam em cena um sujeito virtual tal qual os demais, mantido pela via da artificialidade. Turistas, invasores e hóspedes são significantes que se reproduzem nesse espaço, fazendo oscilar, a cada nova hospedagem, o campo alienado da contemplação e o risco permanente da barbárie.  

Fotografia de Spencer Tunick, série de pessoas nuas.

15 de set. de 2010


VINGANÇA


"Se tu nos espetas não sangramos? Se tu nos fazes cócegas não rimos? Se tu nos dás veneno não morremos? Se nos fazes mal, não devevos nos vingar?".

Shakespeare, O mercador de Veneza


A lógica sobre a qual ‘cessando a causa cessa-se o efeito’ não se aplica inteiramente a determinadas experiências e emoções. A lembrança de uma ofensa, por exemplo, ainda que sujeita a desgastes causados pelo tempo, pode continuar produzindo reações traumáticas, sofridas e paralizantes. Na linguagem reconhecemos a distinção entre a subordinação à uma injúria com mortificação versus o efeito de uma reação traduzida por vingança.

A vingança, uma espécie de justiça com as próprias mãos, funciona como revide à ofensa, diferente de uma outra que teve que ser aceita sem contestação. Um aumento penoso de excitação persistindo a despeito de qual seja a reação, mantém sob suspensão a idéia de resposta adequada ao problema. O desfiamento das teias originárias, manchadas de agressividade, nos aproxima de um desejo arcaico de vingança, cujas bases fantasmáticas conduzem ao irredutível do trauma ligado ao pai como função.

O desejo mórbido de vingança e seu reverso - a autopunição – produzem deslocamentos e evidências contraditórias. Um sentimento hostil endereçado ao pai se confunde com antigas marcas de amor, estabelecendo o instante em que o ego se divide e se entrelaça ao processo de identificação. Como objeto de dominação, ele se oferece igualmente ao risco da destruição no ato da vingança, aonde um pedaço de si se perde, tal qual na mortificação.

Não é possível defender-se de uma agressão de forma suficiente, sendo a frouxidão com que os deslocamentos se propagam o que convoca à emergência do trabalho analítico de elaboração. A linguagem, como substituto à ação, reintegra, reconstrói e revivencia as conexões entre saber e verdade, eliminando as certezas e reconhecendo na vingança inconsciente, repetida e dirigida ao analista, o desnudamento dos afetos e suas repercussões.

Fotografia de Ricardo Beliel - Guerrilha, Amazonas, Brasil

10 de set. de 2010



NA CORDA BAMBA


...mas sei que uma dor assim pungente
não há de ser inutilmente
a esperança
dança na corda bamba de sombrinha
e em cada passo dessa linha
pode se machucar...

Aldir Blanc



Diante das inúmeras possibilidades de tamponamento da angustia, a pergunta sobre qual é a dose suportável de admissão desse estado afetivo torna-se um dilema para a clínica em suas diferentes fases de construção. O discurso analítico, por não oferecer nenhuma rede de proteção, considera o tema com os devidos cuidados, de tal modo que ele não caia na imprecisão ou, o reverso disso, fique insuportavelmente perto, impedindo o trabalho de decifração.

O olhar sobre si mesmo sem garantias e a exposição das certezas incontestáveis, presa aos limites da contradição, produz inquietações e coloca à prova o sujeito falante, que espera do outro a confirmação da sua existência. Vinda da relação com o significante, a angustia tem por base a fantasia, sustentada por este olhar alheio e a interrogação acerca do que ele quer de mim. A resposta que se espera nunca é completa e definitiva, ficando sujeita a opacidades, momentos de imprecisão e sutis variações.

É na dialética entre o desejo e a identificação narcísica - como duas etapas que se atam – que a angustia aparece, desarvorando, transtornando e desorganizando o sujeito da certeza. Diferente da inibição, que paralisa o movimento e impede o desenrolar dos gestos, a angustia exige o movimento do equilibrista na corda bamba, se arriscando a viver sem proteção. O estado de estar emocionado se aproxima da catástrofe, do transtorno e da perturbação, colocando à prova o inquietante do desejo.

A angustia é o afeto que fica à deriva de forma deslocada e enlouquecida, presa aos significantes recalcados que a amarram, exigindo interpretação. O analista interpreta em situação de igual instabilidade, fazendo incidir o sinal do ego sobre o dilema da castração. Ao exigir reconhecimento, o ego não suporta a unidade que lhe é imposta, esgotando a função do outro que o reduz neste lugar. É na agudeza da angustia que o engano se desfaz e o analista se expõe.

8 de set. de 2010



COISAS INCOMPREENSÍVEIS


"Ora, estas coisas psicanalíticas só são compreensíveis se forem relativamente completas e detalhadas, exatamente como a própria análise só funciona se o paciente descer das abstrações substitutivas até os íntimos detalhes. Disso resulta que a discrição é incompatível com uma boa exposição sobre a psicanálise. É preciso ser sem escrúpulos, expor-se, arriscar-se, trair-se, comportar-se como o artista que compra tintas com o dinheiro da casa e queima os móveis para que o modelo não sinta frio. Sem alguma dessas ações criminosas, não se pode fazer nada direito."

Freud, em Cartas a Fliess


Um pensamento não reduzido a palavras gastas e repetidas de forma automática se coloca no meio de todas as contingências, com capacidade dialética e abertura permanente para a revisão de conceitos elementares. Seu ideal não é o domínio completo da realidade, mas a capacidade de sustentação de um diálogo aonde o sujeito não fale nem muito cedo, nem muito tarde.

Sua tarefa consiste na investigação de processos mentais inacessíveis de outro modo, descortinando trilhas suspeitas e articulações duvidosas. Já não basta a hipnose para dar conta das perguntas sem respostas, não bastará tampouco a livre associação conduzindo ao caminho da catarse como sinônimo de felicidade. O sujeito fala e endereça ao outro seu sofrimento, mantém a esperança de que a angústia se aplaque.

Tudo depende da relação e se ela for perturbada as associações falham e o sintoma se reinstala. Devoção afetuosa e inimizade obstinada são elementos eróticos incontestáveis, assim como sexualidade infantil, perversões, fixações da libido permanecem como temas tabus para a sociedade. Atenuar as feições repelentes e conformar a psicanálise a padrões éticos é o mesmo que suprimir através da autoridade qualquer manifestação sintomática.

A visão harmônica da realidade constrói ideais de amor humano, autenticidade e independência, desmascaradas pela psicanálise em seu valor utilitário. Tudo o que vai em direção à realidade vai em busca de prazer, hábito, conformidade. Freud vai mais além, sua relação com o saber é trágica ao perceber que alguma coisa escorrega, foge e escapa. Aonde a moral triunfa, mantendo o sujeito culpado, a psicanálise investiga o desejo, como princípio capaz de reinventar a realidade.

Van Gogh, Auto retrato

6 de set. de 2010




ESTAR AMANDO

Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar, nem pra rir
Socorro, alguma alma, mesmo que penada
Me entregue suas penas
Já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate, nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa


(...)

Arnaldo Antunes


A mais remota e primitiva expressão de laço emocional, conhecida como identificação, representa o esforço do ego por moldar-se a partir de modelos adquiridos de fora, por sugestão. A percepção de uma nova qualidade externa é imediatamente seguida pela construção de um novo laço, mesclado de efeitos emocionais e com significações na vida intelectual.

O amor por si mesmo substituído pelo amor pelos outros, atua como o fator civilizador que transforma o egoísmo - ou puro narcisismo - em altruísmo bordejado de idealismo. As gradações no estado de "estar amando" dependem da valorização do objeto em defesa da própria valorização, o que pode resultar em um ego despretensioso e modesto em função de um objeto sublime e precioso. Danos a si próprio no “estar amando” correspondem à idealização do objeto em igual dimensão.

A satisfação nunca é completa e o objeto idealizado reduz-se necessariamente a um traço parcial de identificação. Um ego dividido entre a insatisfação consigo mesmo e o ideal destacado, reconhece na intimidade da relação diferentes graus de aversão e hostilidade, sujeitas à repressão. O destino do amor sexual de extinguir-se após a satisfação, encontra no afeto a garantia de sua duração, sujeitando-se à ambivalência como fator irredutível da relação.

Nos intervalos desapaixonados, o que se apresenta como primitivo é a revivência da necessidade de uma catexia duradoura que reenvia o "estar amando" para o campo satisfação narcísica como a base de todos os investimentos. Os extremos que dessa torção se derivam conduzem à cegueira e falta de piedade, regidos pelo diapasão do crime e outras formas de perversão. O ego se constitui, nos ensina Freud em Psicologia de grupo e análise do eu (1921), a partir das perdas, como efeito das ruínas amorosas e restos de idealização. A renúncia, base sobre a qual se tece a civilização, conduz o ego
ao seu lugar de origem, às voltas com a divisão.

O Grito, Edvard Munch

2 de set. de 2010


SEM ROMANTISMOS 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela. (...)

Antonio Cícero


Distorções acerca do inconsciente freudiano dão a ele o status de habitat romântico da imaginação criativa, associando seu conteúdo a alguma verdade inacessível e quase divina que habita o obscuro das regiões soturnas do psiquismo. Uma vez revelada, essa verdade enrustida assumiria caráter único, primordial e infalível, substituindo a ordem do mistério corrente por um mistério particular representável e pleno de sentido.

O que Freud propõe, todavia, desde o início, se manifesta sob a forma de um tropeço, um desvalecimento, uma rachadura, um achado prestes a escapar sem deixar pistas. Pela descontinuidade com que se oferece e pelo desvanecimento com que se realiza, o material fornecido vez por outra se resume a uma letra, um traço ou qualquer outro desperdício de memória que impede a associação no tempo devido.

Foi assim com Signorelli, o significante banal que se transforma em material reprimido, com capacidade de produzir, pela via do afeto, fracasso associativo. A tarefa de recuperar lembranças perdidas pega de surpresa o sujeito descontínuo, que se sente ultrapassado por algum atalho imprevisível. É no traço que desliza de Botticeli a Boltraffio que as idéias conciliatórias encontram abrigo, em contraste com o irreconciliável do sexo e da morte, como conteúdo que antecede ao reprimido.

A fenda por onde algo instantâneo é trazido à luz novamente se fecha, tornando evasivo o conteúdo seguinte. Sem pretensões acerca de uma estrutura conclusiva, o trabalho minucioso de Freud se esmera tão somente em recuperar o logro do esquecimento, fornecendo a ele um conjunto de pistas. Disposto a demonstrar a lógica em torno da qual a censura se inspira, ele corta a palavra ao meio, retalhando o seu destino, denunciando a ausência de liberdade a ela atribuída e revelando a intencional temporalidade que em suas entranhas habita. O inconsciente freudiano não é romântico, é lógico e persegue tenazmente a idéia de um sentido.

Escena de caza, Arte Rupestre levantino


1 de set. de 2010






A NOITE DENTRO DE MIM

... considerando que todos os pensamentos que temos quando despertos nos podem também ocorrer quando dormimos, sem que haja nenhum, nesse caso que seja verdadeiro, resolvi fazer de conta que todas as coisas que até então havia entrado no meu espírito não eram mais verdadeiras que as ilusões dos meus sonhos. Mas, logo em seguida, adverti que quando eu queria assim pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa.

Descartes em O discurso do método



Não é desprovido de saber que Descartes estabelece a sua visada ética, com base na dúvida metódica. Educado nas melhores escolas, ele não busca desfazer-se os saberes que regem a vida social, mas sai em busca de uma certeza que o fará estar no mundo de forma autônoma e segura. Suficientemente provido de garantias, as verdades asseguradas por aquele que existe enquanto pensa esbarra na confiança de um pensamento que inevitavelmente engana.

Se o ceticismo - que coloca em dúvida sucessivas e enumeráveis opiniões, refazendo os caminhos que levam ao saber - é a posição ética cartesiana que inaugura um modo difícil e arriscado de se estar no mundo, a certeza de se existir enquanto pensa - mantendo a suposta solidez e coerência da cadeia significante - é o que coloca por terra a dialética cartesiana, lançando novamente para Deus o que não se enquadra na lógica da existência humana.

A ameaça de ser enganado limita e estanca o pensamento, que se pretende infalível no ato de nomeação dos objetos do mundo. Se nomear é deixar sempre escapar alguma coisa, a certeza só pode ser pensada como um momento não assentado, mas como um atravessamento temporário ainda que não leviano. É preciso que o movimento seja repetido inúmeras vezes, para que algo de separado adquira realce e faça sentido no enquadramento do discurso, deslocando-o de uma cadeia inerte e acabada.

Não se trata, nos diz Lacan no Seminário 11, de reduzir a função do significante à nomeação, mas de criar uma abertura para a ausência de plenitude e crença na existência de um pensamento inabalável. Alguma coisa escapa no momento da experiência obtida, não sendo possível reter sem perdas o momento exato em que ela se dá por finalizada. No registro puro do prazer a ética fracassa, sendo necessário ir mais além da garantia que o pensamento provoca, seja ele sob a forma de sonhos ou de uma filosofia exata.

Malevich - Quadrado preto sobre fundo branco

30 de ago. de 2010


(...)    



livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.



Carlos Drummond de Andrade






ZERO À ESQUERDA

A sutura dá o nome à relação do sujeito com a cadeia significante, figurando como um elemento que falta e costura a cadeia, permitindo que ela exista. Faltar não é o mesmo que estar ausente, mas ultrapassar aquilo que se oferece como limitador do sentido. O fio condutor da análise toma emprestado o número zero na aritmética, para dissecar na seqüência dos números naturais a sutura que ele produz de um lugar desconhecido. Tal qual o sujeito diante da cadeia significante, o zero suporta as operações de abstração e unificação, ainda que ausente da seqüência estabelecida.

Milner, em A Sutura, segue a fórmula de Frege, segundo a qual um número é atribuído a um conceito, tornando-se a extensão dele. A atribuição suporta o número, subordinando o objeto à uma unidade e permitindo que ele seja substituído por outro idêntico. A verdade encontra-se no fato de que a coisa substituída – idêntica a si mesma – pode constituir um objeto de um juízo, tornando-se articulável e entrando na ordem discursiva. O idêntico a si mesmo é essencial para que a verdade exista.

Para que o número um passe a uma sucessão ordenada e a dimensão lógica ganhe autonomia, é necessária a presença do zero como não idêntico a si mesmo, como primeira coisa não real no pensamento, podendo e devendo fazer parte da cadeia associativa. O sistema de Frege funciona pela circulação de um elemento em cada um dos lugares aonde ele se fixa, contando o zero como um e suporte de uma seqüência numérica qualquer. Na ordem real, o número três, por exemplo, corresponde à ordem de três objetos, enquanto no discurso submetido à verdade ele é o quarto elemento, que marca a presença da falta na busca do sentido.

A inserção do sujeito na cadeia significante é pensada como o equivalente ao zero na cadeia numérica, como uma sutura que reordena e garante a possibilidade de uma ausência representativa. O sujeito é a sutura de uma falta, o que falta ao significante para ser o "um" definitivo. A liberdade de introduzir o sujeito neste lugar impreciso abre espaço para o pensamento lógico no lugar de manutenção de uma condição mística. Do animal marcado pela prática da linguagem surge o sujeito – descentrado e fadado a se sustentar como aquilo que sutura a cadeia, ao mesmo tempo em que lhe fornece vida.

27 de ago. de 2010




Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...

Mario Quintana


DE QUEM É O CAMINHO?


Vamos desenhar um caminho? me diz a criança no consultório. Um menino de sete anos de idade, vinha acompanhado da mãe e já na entrada do hospital me causou surpresa o modo como andava: sacudia os braços em círculos no ar, como se abrisse caminho no vento pra conseguir passagem. Já fazia algum tempo que ele vinha e a queixa era feita pela mãe: um menino muito agressivo.

Nas primeiras entrevistas, colocava tudo de cabeça pra baixo, chutava, batia. Aos poucos foi dando vida aos carrinhos que iam pra guerra, as mortes, os bandidos. Seu pai morrera com um choque no liquidificador, quando ele ainda estava na barriga da mãe e este era o drama que envolvia aquela família, composta de mãe e filho.

Sim, vamos, respondi depois de colocar duas folhas de papel, lápis e borracha sobre a mesa, sentando-me em seguida. Vi que ele desenhava distraído da minha presença, absorto, determinado, decidido. Enquanto eu apenas repetia, não entrando na brincadeira do jeito que me foi oferecida. Para comodidade minha, perguntei se poderia copiar o dele, que me parecia já bem definido. Afinal o que eu colocaria no meu caminho, como explicaria aquela brincadeira sem sentido? Imediatamente ele interrompeu o desenho, colocou o lápis sobre a mesa, me olhou e disse bem sério: é claro que não, você não sabe que cada um tem que ter o seu caminho?

Já fazem muitos anos e este era o início da minha clínica. Mas nunca mais esqueci aquele menino. O pedido que vinha desde o início sob a insígnia da agressividade, deu lugar a um sujeito agora capaz de caminhar sozinho. Sua coragem de se rebelar contra o meu conformismo era muito mais que uma brincadeira, mas quem disse que ele queria saber disso?

Fotografia de, da série "Homem" e "Árvore" - Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger, da Fundação Cultural do Estado da Bahia.




26 de ago. de 2010



Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.

Hilda Hilst


PERGUNTAS SEM RESPOSTA


A pergunta sobre uma ciência que inclua a psicanálise, ou mesmo de uma psicanálise que se pretenda ciência, é respondida por Lacan com a questão seguinte, que permanece desde sempre sem resposta: em que está o analista autorizado? Confundida por reproduzir muitas vezes os ecos de uma prática religiosa, a discussão sobre a praxis psicanalítica esbarra no cômico, recaindo necessariamente no impasse e expondo-se obrigatoriamente a suspeitas embaraçosas.

Os quatro conceitos fundamentais servem de alerta para o reconhecimento do que está em jogo nesta experiência que alguns sujeitos tomam parte. O primeiro deles, o inconsciente, conduz ao que se apresenta como efeito de um significante para o outro, numa cadeia deslizante a alienada, como quem fala e não sabe. Como puro efeito do significante e se estruturando como linguagem, o inconsciente pulsa de forma temporal, fazendo história.

O segundo conceito, a repetição, une tiquê e automaton no encontro marcado e repetido, deixando atrás de si, a cada repetição, um real que escapa. O que se repete é sempre o que se produz por acaso, cujo sentido lhe cabe exato. Comandando as atividades, a repetição demanda o novo e se volta para o lúdico, como o carretel na beira do berço, na presença do objeto perdido e reencontrado. A repetição é o recurso para lidar com a falta e a sua ocultação pré-determinada.

A transferência, como terceiro dos conceitos, fala da enganação do amor e da pulsação que a ela se alia. A arte de escutar unida ao amor endereçado a quem supostamente sabe, permite o testemunho de uma perda radical sob a rubrica de um psiquismo afetado. A transferência, como pivô de tudo o que acontece no trabalho analítico, persuade o outro acerca da completude, para desmascarar a farsa e o desconhecimento daquilo que falta e nada recobre.

A pulsão, como quarto conceito de base, permanece como uma teoria não demarcada e de constância inalterada. Comportando idéias nunca antes descritas - como a topologia da borda, que permite pensar o privilégio dos orifícios corporais, acrescida de um novo estatuto da ação sempre retroativa, sem deixar de levar em consideração a dissociação entre o alvo e o objeto - o conceito de pulsão manda o sujeito cartesiano às favas, mantendo as perguntas que ele faz sem respostas.

Pintura de Lucian Michael Freud 





























 

25 de ago. de 2010


A revolta nasce de um espetáculo de insensatez perante uma condição injusta e incompreensível. Mas o seu ímpeto cego reivindica a ordem no meio do caos e a unidade no próprio seio daquilo que foge e desaparece. A revolta clama, ela exige, ela quer que o escândalo termine e se fixe finalmente àquilo que até então se escrevia sem trégua sobre o mar. Sua preocupação é transformar. Mas transformar é agir, e agir, amanhã, será matar enquanto ela ainda não sabe se matar é legítimo.

Albert Camus, O estrangeiro




DEMASIADAMENTE HUMANO

A denúncia do que existe de mórbido no mundo do crime não pode servir de corolário para a adaptação do sujeito a uma realidade isenta de conflitos e à suposição de um mundo ideal. O que não se ajusta inteiramente ao processo de organização social e se sustenta pela sujeição do particular ao universal, garante na alienação do semelhante a quota de agressividade recalcada no interior e desvelada no mascaramento da represália.

A humanização do tratamento do criminoso, feito a partir do declínio da sua humanidade, supõe que o homem não pode reconhecer para os seus semelhantes o ato que praticou como humano. Sob a égide da culpa e degradação e baseados numa cientificidade que isola condutas e mantém a viscosidade das motivações agressivas, os espaços marcados por estigmas sociais reproduzem os campos de concentração, submetendo sujeitos a especulações utilitaristas, transformando o humano em aberração.

Numa importante parcela de criminosos não há o que se destaque como anomalia psíquica. Ao contrário disso, uma estranha satisfação com o ato consumado pode ser facilmente reconhecida como intenção não isolada. No entanto, quanto mais a sociedade se move em direção de torná-los alienados - atribuindo-lhes alguma desrazão - mais eles funcionam no lugar de bodes expiatórios, vedetes exibidoras da função real que a cultura explora de forma perversa e desedida.

Libertar a verdade do ato, comprometendo a responsabilidade do criminoso por meio da assunção lógica e aceitação de um justo castigo, é função do Estado, baseado em critérios formais que reflitam a estrutura de poder estabelecido. Não existe tratamento inteiramente objetivo do fenômeno criminal, mas uma submissão a leis e costumes previstos de antemão. O crime é determinado a partir da concepção de responsabilidade e castigo impostos pela cultura em que se vive.

As significações que a psicanálise revela ao sujeito culpado não o excluem da comunidade humana, mas reivindica um tratamento aonde o sujeito não seja alienado de si mesmo e tenha a sua responsabilidade restaurada. Resgatando igualmente a  esperança de se integrar à experiência vivida. Nenhuma ciência pode reduzir a particularidade das condutas, assim como nenhum esquema pode suprir a busca do homem no sentido da verdade. O respeito pelo sofrimento humano não exclui a verdade da noção de responsabilidade que a acompanha. Mas entende essa junção como única possibilidade de progresso da experiência do humano.

Chagall, Marc - White Crucifixion, 1938

24 de ago. de 2010

QUADRILHA


João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade


Compreendida a partir das relações sociais e tendo como recorte cultural o casamento, a família sofre determinações, cujo condicionamento reproduz a realidade do ambiente sob a forma de um complexo. A realidade social exige a revisão permanente deste complexo, permitindo situar na história da família os diferentes tipos de neurose que acompanham a sua constituição. Seja qual for o futuro da organização familiar, o aparecimento da psicanálise será indissociável da sua formação.

A ordem humana subverte a fixidez dos modelos culturais, de onde surgem formas familiares permanentemente sujeitas à variação. Em todas elas a existência da sexualidade e a tensão produzida por diferentes etapas do recalcamento, dão forma à fantasia e à lógica que se funda na proibição. A partir do tabu do incesto como uma idéia universal, Freud funda no Complexo de Édipo o eixo sobre o qual a sexualidade se constitui e se projeta na realidade, confrontando o psiquismo humano com o drama da castração.

O complexo reproduz a realidade em sua forma e importância, mantendo a determinação cultural com a pregnância de uma imposição. Seu conteúdo - fornecido em diferentes etapas da vida - e sua forma de organização afetiva – que colocam em cena a agressividade, o ciúme, a competitividade e as identificações sucessivas – promove os elementos de choque com o real. A análise compreende que quanto mais diversificadas forem as realidades integradas na experiência familiar, mais formador será para a razão a redução dos elementos e suas fixações.

A integração dos sujeitos, que permite a passagem do complexo para social, é um processo dialético cuja lógica ultrapassa qualquer idéia de predisposição. Se o estudo destas formas refere-se à história individual e da sociedade como parte dela, o movimento subversivo e crítico em que ele se realiza encontram seu germe mais ativo nas diferenças de ordenação. É pelo ideal como pura projeção, pela evidência da relação sexual e pela angustia que brota das figuras mais profundas do destino humano, que a família como ficção permite ainda hoje a junção de uma experiência sob a forma do complexo, dando lugar ao sujeito como permanente questão.

Fotografia - Um retrato de familia

23 de ago. de 2010


A felicidade quando vem, já vem carregada de saudade...

Guimarães Rosa em Grandes Sertões: veredas.


FELICIDADE

Com extraordinários graus de variação e de forma completamente inexplicável, a angustia é o afeto que acomete de forma indiscriminada e inesperada a todos os sujeitos. Atormentando de forma ruidosa na consciência ou despistadamente por detrás de um sintoma, este afeto possui relação direta com o sentimento de culpa, o mais alto preço que se paga pelo pertencimento a uma civilização e seus interditos.

A ação, não importa se pensada ou praticada, sofre regulações por parte do superego, a instância psíquica que julga e pune, sem distinguir o ato efetuado do simplesmente pretendido. A instalação do conflito transfere tudo o que é agressivo para dentro, transformando a frustração em culpa e fortificando quase sempre o sintoma como uma punição pelo sentimento proibido.

A união de sujeitos em comunidade e sua integração ao processo coletivo vão contra o desenvolvimento individual, que tem como princípio o prazer e a felicidade egoísta. O altruísmo, em contraposição, é a ação cultural que impõe restrições e estabelece ideais a serem seguidos. O conflito instalado na junção dos dois planos estabelece uma disputa acirrada entre o individual e o coletivo, tornando irreconciliável e que se apresenta como indispensável ao convívio.

A razão não oferece nenhum consolo para a agressividade como obstáculo à civilização. O controle da natureza - que permite ao homem o domínio das perturbações na vida comunal sob diferentes formas de dominação – não elimina a culpa, não eliminando de igual modo a inquietação provocada pela angustia, que dessa conjunção se precipita. A felicidade como estado temporário, permanecerá como parte de uma história mal contada, como os restos de um sonho interrompido.

Di Cavalcanti, Onde eu estaria feliz - 1965.

19 de ago. de 2010


ISSO NÃO É...

Cala-te, boca, que, como não ignorará quem tiver o costume de ouvir e buscar os entendimentos subtis que vêm com as palavras e que são mais do que elas, significa, verdadeiramente, que quem falou morre por dizer o que aparentemente decidira calar.

Saramago, em A história do cerco de Lisboa


Perceber não é um processo puramente passivo, assim como julgar não acontece a despeito do campo afetivo. O conteúdo ideativo não está livre de manobras psíquicas, que encobrem a realidade por meio de representações distorcidas. A representação é uma repetição do já vivido, espaço aonde o princípio do prazer se prevalece de múltiplas garantias e o sujeito vislumbra o encontro do objeto desde sempre perdido.

O processo de repressão resulta em variantes estranhas, entre elas a negativa, que permite o reconhecimento do material reprimido, liberto e simultaneamente encoberto pela censura. Uma espécie de decisão que afirma e desafirma determinada posse ou atributo, assevera ao mesmo tempo em que questiona a existência de sua representação na realidade. Aquilo que é mau, estranho e externo ao ego começa a ser estranhamente idêntico ao interno e reconhecível.

O julgamento obedece ao teste da realidade, equivalendo a dizer que ele satisfaz aos interesses do ego. Já não importa dizer se o que foi percebido pode ou não ser integrado ao ego como representação, mas se pode ser redescoberto na percepção. Não importa se algo é bom ou ruim, mas de que modo o ego se apropria desse "algo", uma vez que as representações se originam de percepções repetidas.

A afirmação de alguma coisa substitui a união dessa coisa, enquanto a negativa representa a expulsão, obedecendo ao processo de destruição. A negativa constitui assim um modo de se apropriar de algum material inconsciente sob a forma do repúdio. O conteúdo de uma imagem ou uma idéia, quando abre caminho para a consciência, o faz de forma distorcida. “Isso não é” inclui a forma de julgamento que também quer dizer “isso é algo que eu preferiria reprimir”. Um juízo negativo é um substituto intelectual daquilo que não pode ser dito, colocando o pensamento em confronto com as restrições e com o que não é permitido.

Marcel Duchamp, A fonte

18 de ago. de 2010





UM MOMENTO DE PAUSA


"Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o consertar desconcertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo."

Guimarães Rosa em Grandes Sertões: Veredas



Como é possível fazer a distinção entre uma angústia real, como reação a um perigo visível e justificável, e uma angústia neurótica, enigmática e despropositada? Se desta distinção depende a escolha da intervenção clínica adequada, a imprecisão na distinção entre uma coisa e outra é a mesma que nos leva ao problema da fonte, se interna ou com base na realidade.

A questão sexual, desde sempre interessando à psicanálise, localiza o sofrimento neurótico no ego, cujas escolhas perversas são imperdoáveis. Se esforçando para deter o movimento de um id desenfreado - cujo prazer se presta a qualquer laço - e um superego feroz, que pune a qualquer deslize covarde, o ego tropeça, se esforça e muitas vezes se despedaça.

Como se não bastasse, descobre Freud mais tarde, as forças que brigam no interior da mente se fundem e se confundem com um estranho e despudorado prazer atrelado à pulsão de morte. A ameaça que vem de dentro é tão trágica quanto a que vem de fora. As ligações de afeto que o sujeito produz são mascaradas por deslocamentos de toda forma, não pode ser compreendida pela lógica nas quais se aloja. O inconsciente une experiência a expectativa com fusões de outra ordem.

A noção de perigo, derivada da experiência traumática, será sempre singular e inexplicável. Somente o trabalho de desfusionamento das conexões “lógicas” pode permitir uma outra relação com a realidade. A repetição da experiência traumática e o estado afetivo paralisante, aparentemente inadequado para os propósitos da realidade, faz apelo permanente ao sujeito diante do sofrimento e a necessidade de algum enquadre. A idéia do que é normal e o que é patológico, quando se trata da angustia, requer momentos de pausa.