2 de set. de 2010


SEM ROMANTISMOS 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela. (...)

Antonio Cícero


Distorções acerca do inconsciente freudiano dão a ele o status de habitat romântico da imaginação criativa, associando seu conteúdo a alguma verdade inacessível e quase divina que habita o obscuro das regiões soturnas do psiquismo. Uma vez revelada, essa verdade enrustida assumiria caráter único, primordial e infalível, substituindo a ordem do mistério corrente por um mistério particular representável e pleno de sentido.

O que Freud propõe, todavia, desde o início, se manifesta sob a forma de um tropeço, um desvalecimento, uma rachadura, um achado prestes a escapar sem deixar pistas. Pela descontinuidade com que se oferece e pelo desvanecimento com que se realiza, o material fornecido vez por outra se resume a uma letra, um traço ou qualquer outro desperdício de memória que impede a associação no tempo devido.

Foi assim com Signorelli, o significante banal que se transforma em material reprimido, com capacidade de produzir, pela via do afeto, fracasso associativo. A tarefa de recuperar lembranças perdidas pega de surpresa o sujeito descontínuo, que se sente ultrapassado por algum atalho imprevisível. É no traço que desliza de Botticeli a Boltraffio que as idéias conciliatórias encontram abrigo, em contraste com o irreconciliável do sexo e da morte, como conteúdo que antecede ao reprimido.

A fenda por onde algo instantâneo é trazido à luz novamente se fecha, tornando evasivo o conteúdo seguinte. Sem pretensões acerca de uma estrutura conclusiva, o trabalho minucioso de Freud se esmera tão somente em recuperar o logro do esquecimento, fornecendo a ele um conjunto de pistas. Disposto a demonstrar a lógica em torno da qual a censura se inspira, ele corta a palavra ao meio, retalhando o seu destino, denunciando a ausência de liberdade a ela atribuída e revelando a intencional temporalidade que em suas entranhas habita. O inconsciente freudiano não é romântico, é lógico e persegue tenazmente a idéia de um sentido.

Escena de caza, Arte Rupestre levantino


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