A felicidade quando vem, já vem carregada de saudade...
Guimarães Rosa em Grandes Sertões: veredas.
FELICIDADE
A ação, não importa se pensada ou praticada, sofre regulações por parte do superego, a instância psíquica que julga e pune, sem distinguir o ato efetuado do simplesmente pretendido. A instalação do conflito transfere tudo o que é agressivo para dentro, transformando a frustração em culpa e fortificando quase sempre o sintoma como uma punição pelo sentimento proibido.
A união de sujeitos em comunidade e sua integração ao processo coletivo vão contra o desenvolvimento individual, que tem como princípio o prazer e a felicidade egoísta. O altruísmo, em contraposição, é a ação cultural que impõe restrições e estabelece ideais a serem seguidos. O conflito instalado na junção dos dois planos estabelece uma disputa acirrada entre o individual e o coletivo, tornando irreconciliável e que se apresenta como indispensável ao convívio.
A razão não oferece nenhum consolo para a agressividade como obstáculo à civilização. O controle da natureza - que permite ao homem o domínio das perturbações na vida comunal sob diferentes formas de dominação – não elimina a culpa, não eliminando de igual modo a inquietação provocada pela angustia, que dessa conjunção se precipita. A felicidade como estado temporário, permanecerá como parte de uma história mal contada, como os restos de um sonho interrompido.
Di Cavalcanti, Onde eu estaria feliz - 1965.
