30 de jul. de 2010

O estranho




Eu estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco
Já eram horas de dormir de novo!

Mario Quintana

São as lacunas da consciência que nos permitem pensar a existência de um outro campo, cujo jogo linguístico duvidoso e cheio de tropeços revela um sujeito que não sabe o que diz enquanto fala. E que só saberá depois, talvez por alguns instantes. Idéias que se assomam à mente, vindas não se sabe de onde, produzem estranhas articulações e impedem a reivindicação de uma consciência ininterrupta, ativa e dominante.

Quando algo parece estranho e impossível de lidar, atribuímos ao outro a origem desse estranho pertencimento. Interpretamos nele o ato recusado em nossa consciência, enquanto nos distanciamos de nós mesmos sem nos darmos conta. Algum impedimento de obtenção de um conhecimento real sobre si, no ato da fala, faz com que o discurso molde a realidade e divida o sujeito entre o que diz e quem diz, a todo instante.

Todo ato psíquico passa por uma espécie de teste de censura, exigindo um novo registro, situado em um outro campo. A idéia pode avançar de um registro ao outro sem perder a localização em ambos, sendo o afeto o que determina as possibilidades de conexão. Na repressão, uma ruptura entre o afeto e a idéia à qual o objeto pertence, faz com que ele sofra vicissitudes isoladas, irrompendo sob a forma de novas e enigmáticas representações.

Os aspectos inconscientes se tornam conhecidos por meio das suas formações, em especial nos sonhos e no sintoma. De forma altamente organizada e livre de contradição, a fantasia permanece reprimida ao mesmo tempo em que promove substituições. As distorções que as formações inconscientes fabricam não se baseiam na semelhança das coisas denotadas, mas na uniformidade das palavras empregadas. A catexia da apresentação da palavra não faz parte da repressão, abrindo o caminho da fala enquanto suporte para a decifração.

Zilio, Carlos
Lute , 1967 - 1998
serigrafia sobre filme plástico e resina plástica acondicionados em marmita de alumínio [apropriação]
5,8 x 10,5 x 17,5 cm
Coleção Museu de Arte Moderna de São Paulo (SP)
Reprodução Fotográfica Romulo Fialdini