
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada...
Trecho de Licença Poética, Adélia Prado
A pergunta sobre o feminino atravessa a história, retornando sempre e exigindo do pensamento inesgotáveis elaborações. Ainda que se atribua o ativo ao masculino e o passivo ao feminino, a proporção com que os dois se misturam e se sujeitam a flutuações, faz com que o sujeito sexuado não se reduza ao campo da anatomia, mas se veja inserido em um contexto mais amplo, cujas determinações lhe escapam.
Se os costumes sociais atribuem ao feminino uma condição passiva, é necessário que se reconheça a grande quantidade de atividade que o estado de passividade exige. A supressão da agressividade que favorece os impulsos masoquistas e ligam eroticamente as tendências destrutivas para dentro, resulta em um intenso trabalho psíquico, permeado de angústia e ambivalências fantasísticas.
A fantasia que toca o chão da realidade e aponta para a diferença anatômica entre os sexos, deixa marcas e abre caminho para a duplicidade. A descoberta da falta e o encobrimento da mesma não acontecem em igual escala nos dois casos, sendo a anatomia determinante da evitação, efetuada em registros contrários. Inveja e ciúme, narcisismo e vaidade são interpretadas como compensações da inferioridade, que predominam diante da incompletude inexorável.
O superego feminino já não pode ser pensando como puro efeito das renúncias incestuosas, já que a falta é anterior à ameaça. Os prejuízos de intensidade que sofre e o retardamento com que se instala – pela evidência da castração como um fato inadiável - conferem ao superego importância exclusivamente cultural, como delimitador dos caminhos entre o passivo e a agressividade. A remoção da atividade fálica para o caminho da feminilidade é uma questão cultural, com efeitos desde sempre dramáticos.
A visão após o sermão de Paul Gauguin, em 1888