8 de set. de 2010



COISAS INCOMPREENSÍVEIS


"Ora, estas coisas psicanalíticas só são compreensíveis se forem relativamente completas e detalhadas, exatamente como a própria análise só funciona se o paciente descer das abstrações substitutivas até os íntimos detalhes. Disso resulta que a discrição é incompatível com uma boa exposição sobre a psicanálise. É preciso ser sem escrúpulos, expor-se, arriscar-se, trair-se, comportar-se como o artista que compra tintas com o dinheiro da casa e queima os móveis para que o modelo não sinta frio. Sem alguma dessas ações criminosas, não se pode fazer nada direito."

Freud, em Cartas a Fliess


Um pensamento não reduzido a palavras gastas e repetidas de forma automática se coloca no meio de todas as contingências, com capacidade dialética e abertura permanente para a revisão de conceitos elementares. Seu ideal não é o domínio completo da realidade, mas a capacidade de sustentação de um diálogo aonde o sujeito não fale nem muito cedo, nem muito tarde.

Sua tarefa consiste na investigação de processos mentais inacessíveis de outro modo, descortinando trilhas suspeitas e articulações duvidosas. Já não basta a hipnose para dar conta das perguntas sem respostas, não bastará tampouco a livre associação conduzindo ao caminho da catarse como sinônimo de felicidade. O sujeito fala e endereça ao outro seu sofrimento, mantém a esperança de que a angústia se aplaque.

Tudo depende da relação e se ela for perturbada as associações falham e o sintoma se reinstala. Devoção afetuosa e inimizade obstinada são elementos eróticos incontestáveis, assim como sexualidade infantil, perversões, fixações da libido permanecem como temas tabus para a sociedade. Atenuar as feições repelentes e conformar a psicanálise a padrões éticos é o mesmo que suprimir através da autoridade qualquer manifestação sintomática.

A visão harmônica da realidade constrói ideais de amor humano, autenticidade e independência, desmascaradas pela psicanálise em seu valor utilitário. Tudo o que vai em direção à realidade vai em busca de prazer, hábito, conformidade. Freud vai mais além, sua relação com o saber é trágica ao perceber que alguma coisa escorrega, foge e escapa. Aonde a moral triunfa, mantendo o sujeito culpado, a psicanálise investiga o desejo, como princípio capaz de reinventar a realidade.

Van Gogh, Auto retrato