
Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos
(Ana Cristina César em Contagem regressiva - Inéditos e Dispersos)
A sutil diferença entre o normal e o patológico é o ponto de interrogação que nos incita a pensar a uniformização das condutas sob a égide da farmacologia, disposta a vender “normalidade” em embalagens caras e de efeitos narcóticos francamente discutíveis. O famoso diagnóstico de “depressão” que invade os consultórios de psiquiatria, arrasta milagrosamente para debaixo do tapete a infelicidade, mantendo no social a urgência da alegria.
Entre o grave e o necessário na tristeza diante da vida, permanece a dúvida acerca do que é suportado como devido. Conceder ao sofrimento humano o estatuto de uma intervenção clínica é o que Freud vai elaborar de forma crítica, através de uma distinção puramente fenomenológica entre luto e a melancolia. (Luto e Melancolia, (1917 [1915]) Volume XIV, Obras Completas).
Em ambos os estados afetivos é a perda do objeto amado que vai determinar um tempo de recolhimento, marcado pelo desinteresse nas coisas do mundo e desânimo para a abertura de novas investidas. A perda do objeto amado constitui, todavia, uma excelente oportunidade para que a ambivalência se manifeste e se faça efetiva, exigindo do teste da realidade uma espécie de baliza.
É na perturbação da auto-estima, como efeito da identificação ao objeto perdido, que a natureza do sofrimento não se explica. Se no luto é o mundo que parece partido, fornecendo uma explicação para o sofrimento temporário e suscetível, na melancolia é o ego quem padece de remorso pelo desmascaramento que a dor produz nos dois sentidos.
Se no luto, desistir do objeto amado se transforma em incentivo ao ego para continuar vivo, o risco da melancolia, nos alerta Freud, é o suicídio. Na luta entre amor e ódio ao objeto, o ego se oferece como fonte de sacrifício. A ambivalência, como força motora do conflito, faz apelo ao teste da realidade e aos limites da intervenção clínica. A perda, de qualquer modo, se manterá sempre como limite intransponível entre o abismo e a vida.
Michelangelo (Creazione Adamo)