30 de ago. de 2010


(...)    



livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.



Carlos Drummond de Andrade






ZERO À ESQUERDA

A sutura dá o nome à relação do sujeito com a cadeia significante, figurando como um elemento que falta e costura a cadeia, permitindo que ela exista. Faltar não é o mesmo que estar ausente, mas ultrapassar aquilo que se oferece como limitador do sentido. O fio condutor da análise toma emprestado o número zero na aritmética, para dissecar na seqüência dos números naturais a sutura que ele produz de um lugar desconhecido. Tal qual o sujeito diante da cadeia significante, o zero suporta as operações de abstração e unificação, ainda que ausente da seqüência estabelecida.

Milner, em A Sutura, segue a fórmula de Frege, segundo a qual um número é atribuído a um conceito, tornando-se a extensão dele. A atribuição suporta o número, subordinando o objeto à uma unidade e permitindo que ele seja substituído por outro idêntico. A verdade encontra-se no fato de que a coisa substituída – idêntica a si mesma – pode constituir um objeto de um juízo, tornando-se articulável e entrando na ordem discursiva. O idêntico a si mesmo é essencial para que a verdade exista.

Para que o número um passe a uma sucessão ordenada e a dimensão lógica ganhe autonomia, é necessária a presença do zero como não idêntico a si mesmo, como primeira coisa não real no pensamento, podendo e devendo fazer parte da cadeia associativa. O sistema de Frege funciona pela circulação de um elemento em cada um dos lugares aonde ele se fixa, contando o zero como um e suporte de uma seqüência numérica qualquer. Na ordem real, o número três, por exemplo, corresponde à ordem de três objetos, enquanto no discurso submetido à verdade ele é o quarto elemento, que marca a presença da falta na busca do sentido.

A inserção do sujeito na cadeia significante é pensada como o equivalente ao zero na cadeia numérica, como uma sutura que reordena e garante a possibilidade de uma ausência representativa. O sujeito é a sutura de uma falta, o que falta ao significante para ser o "um" definitivo. A liberdade de introduzir o sujeito neste lugar impreciso abre espaço para o pensamento lógico no lugar de manutenção de uma condição mística. Do animal marcado pela prática da linguagem surge o sujeito – descentrado e fadado a se sustentar como aquilo que sutura a cadeia, ao mesmo tempo em que lhe fornece vida.

27 de ago. de 2010




Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...

Mario Quintana


DE QUEM É O CAMINHO?


Vamos desenhar um caminho? me diz a criança no consultório. Um menino de sete anos de idade, vinha acompanhado da mãe e já na entrada do hospital me causou surpresa o modo como andava: sacudia os braços em círculos no ar, como se abrisse caminho no vento pra conseguir passagem. Já fazia algum tempo que ele vinha e a queixa era feita pela mãe: um menino muito agressivo.

Nas primeiras entrevistas, colocava tudo de cabeça pra baixo, chutava, batia. Aos poucos foi dando vida aos carrinhos que iam pra guerra, as mortes, os bandidos. Seu pai morrera com um choque no liquidificador, quando ele ainda estava na barriga da mãe e este era o drama que envolvia aquela família, composta de mãe e filho.

Sim, vamos, respondi depois de colocar duas folhas de papel, lápis e borracha sobre a mesa, sentando-me em seguida. Vi que ele desenhava distraído da minha presença, absorto, determinado, decidido. Enquanto eu apenas repetia, não entrando na brincadeira do jeito que me foi oferecida. Para comodidade minha, perguntei se poderia copiar o dele, que me parecia já bem definido. Afinal o que eu colocaria no meu caminho, como explicaria aquela brincadeira sem sentido? Imediatamente ele interrompeu o desenho, colocou o lápis sobre a mesa, me olhou e disse bem sério: é claro que não, você não sabe que cada um tem que ter o seu caminho?

Já fazem muitos anos e este era o início da minha clínica. Mas nunca mais esqueci aquele menino. O pedido que vinha desde o início sob a insígnia da agressividade, deu lugar a um sujeito agora capaz de caminhar sozinho. Sua coragem de se rebelar contra o meu conformismo era muito mais que uma brincadeira, mas quem disse que ele queria saber disso?

Fotografia de, da série "Homem" e "Árvore" - Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger, da Fundação Cultural do Estado da Bahia.




26 de ago. de 2010



Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.

Hilda Hilst


PERGUNTAS SEM RESPOSTA


A pergunta sobre uma ciência que inclua a psicanálise, ou mesmo de uma psicanálise que se pretenda ciência, é respondida por Lacan com a questão seguinte, que permanece desde sempre sem resposta: em que está o analista autorizado? Confundida por reproduzir muitas vezes os ecos de uma prática religiosa, a discussão sobre a praxis psicanalítica esbarra no cômico, recaindo necessariamente no impasse e expondo-se obrigatoriamente a suspeitas embaraçosas.

Os quatro conceitos fundamentais servem de alerta para o reconhecimento do que está em jogo nesta experiência que alguns sujeitos tomam parte. O primeiro deles, o inconsciente, conduz ao que se apresenta como efeito de um significante para o outro, numa cadeia deslizante a alienada, como quem fala e não sabe. Como puro efeito do significante e se estruturando como linguagem, o inconsciente pulsa de forma temporal, fazendo história.

O segundo conceito, a repetição, une tiquê e automaton no encontro marcado e repetido, deixando atrás de si, a cada repetição, um real que escapa. O que se repete é sempre o que se produz por acaso, cujo sentido lhe cabe exato. Comandando as atividades, a repetição demanda o novo e se volta para o lúdico, como o carretel na beira do berço, na presença do objeto perdido e reencontrado. A repetição é o recurso para lidar com a falta e a sua ocultação pré-determinada.

A transferência, como terceiro dos conceitos, fala da enganação do amor e da pulsação que a ela se alia. A arte de escutar unida ao amor endereçado a quem supostamente sabe, permite o testemunho de uma perda radical sob a rubrica de um psiquismo afetado. A transferência, como pivô de tudo o que acontece no trabalho analítico, persuade o outro acerca da completude, para desmascarar a farsa e o desconhecimento daquilo que falta e nada recobre.

A pulsão, como quarto conceito de base, permanece como uma teoria não demarcada e de constância inalterada. Comportando idéias nunca antes descritas - como a topologia da borda, que permite pensar o privilégio dos orifícios corporais, acrescida de um novo estatuto da ação sempre retroativa, sem deixar de levar em consideração a dissociação entre o alvo e o objeto - o conceito de pulsão manda o sujeito cartesiano às favas, mantendo as perguntas que ele faz sem respostas.

Pintura de Lucian Michael Freud 





























 

25 de ago. de 2010


A revolta nasce de um espetáculo de insensatez perante uma condição injusta e incompreensível. Mas o seu ímpeto cego reivindica a ordem no meio do caos e a unidade no próprio seio daquilo que foge e desaparece. A revolta clama, ela exige, ela quer que o escândalo termine e se fixe finalmente àquilo que até então se escrevia sem trégua sobre o mar. Sua preocupação é transformar. Mas transformar é agir, e agir, amanhã, será matar enquanto ela ainda não sabe se matar é legítimo.

Albert Camus, O estrangeiro




DEMASIADAMENTE HUMANO

A denúncia do que existe de mórbido no mundo do crime não pode servir de corolário para a adaptação do sujeito a uma realidade isenta de conflitos e à suposição de um mundo ideal. O que não se ajusta inteiramente ao processo de organização social e se sustenta pela sujeição do particular ao universal, garante na alienação do semelhante a quota de agressividade recalcada no interior e desvelada no mascaramento da represália.

A humanização do tratamento do criminoso, feito a partir do declínio da sua humanidade, supõe que o homem não pode reconhecer para os seus semelhantes o ato que praticou como humano. Sob a égide da culpa e degradação e baseados numa cientificidade que isola condutas e mantém a viscosidade das motivações agressivas, os espaços marcados por estigmas sociais reproduzem os campos de concentração, submetendo sujeitos a especulações utilitaristas, transformando o humano em aberração.

Numa importante parcela de criminosos não há o que se destaque como anomalia psíquica. Ao contrário disso, uma estranha satisfação com o ato consumado pode ser facilmente reconhecida como intenção não isolada. No entanto, quanto mais a sociedade se move em direção de torná-los alienados - atribuindo-lhes alguma desrazão - mais eles funcionam no lugar de bodes expiatórios, vedetes exibidoras da função real que a cultura explora de forma perversa e desedida.

Libertar a verdade do ato, comprometendo a responsabilidade do criminoso por meio da assunção lógica e aceitação de um justo castigo, é função do Estado, baseado em critérios formais que reflitam a estrutura de poder estabelecido. Não existe tratamento inteiramente objetivo do fenômeno criminal, mas uma submissão a leis e costumes previstos de antemão. O crime é determinado a partir da concepção de responsabilidade e castigo impostos pela cultura em que se vive.

As significações que a psicanálise revela ao sujeito culpado não o excluem da comunidade humana, mas reivindica um tratamento aonde o sujeito não seja alienado de si mesmo e tenha a sua responsabilidade restaurada. Resgatando igualmente a  esperança de se integrar à experiência vivida. Nenhuma ciência pode reduzir a particularidade das condutas, assim como nenhum esquema pode suprir a busca do homem no sentido da verdade. O respeito pelo sofrimento humano não exclui a verdade da noção de responsabilidade que a acompanha. Mas entende essa junção como única possibilidade de progresso da experiência do humano.

Chagall, Marc - White Crucifixion, 1938

24 de ago. de 2010

QUADRILHA


João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade


Compreendida a partir das relações sociais e tendo como recorte cultural o casamento, a família sofre determinações, cujo condicionamento reproduz a realidade do ambiente sob a forma de um complexo. A realidade social exige a revisão permanente deste complexo, permitindo situar na história da família os diferentes tipos de neurose que acompanham a sua constituição. Seja qual for o futuro da organização familiar, o aparecimento da psicanálise será indissociável da sua formação.

A ordem humana subverte a fixidez dos modelos culturais, de onde surgem formas familiares permanentemente sujeitas à variação. Em todas elas a existência da sexualidade e a tensão produzida por diferentes etapas do recalcamento, dão forma à fantasia e à lógica que se funda na proibição. A partir do tabu do incesto como uma idéia universal, Freud funda no Complexo de Édipo o eixo sobre o qual a sexualidade se constitui e se projeta na realidade, confrontando o psiquismo humano com o drama da castração.

O complexo reproduz a realidade em sua forma e importância, mantendo a determinação cultural com a pregnância de uma imposição. Seu conteúdo - fornecido em diferentes etapas da vida - e sua forma de organização afetiva – que colocam em cena a agressividade, o ciúme, a competitividade e as identificações sucessivas – promove os elementos de choque com o real. A análise compreende que quanto mais diversificadas forem as realidades integradas na experiência familiar, mais formador será para a razão a redução dos elementos e suas fixações.

A integração dos sujeitos, que permite a passagem do complexo para social, é um processo dialético cuja lógica ultrapassa qualquer idéia de predisposição. Se o estudo destas formas refere-se à história individual e da sociedade como parte dela, o movimento subversivo e crítico em que ele se realiza encontram seu germe mais ativo nas diferenças de ordenação. É pelo ideal como pura projeção, pela evidência da relação sexual e pela angustia que brota das figuras mais profundas do destino humano, que a família como ficção permite ainda hoje a junção de uma experiência sob a forma do complexo, dando lugar ao sujeito como permanente questão.

Fotografia - Um retrato de familia

23 de ago. de 2010


A felicidade quando vem, já vem carregada de saudade...

Guimarães Rosa em Grandes Sertões: veredas.


FELICIDADE

Com extraordinários graus de variação e de forma completamente inexplicável, a angustia é o afeto que acomete de forma indiscriminada e inesperada a todos os sujeitos. Atormentando de forma ruidosa na consciência ou despistadamente por detrás de um sintoma, este afeto possui relação direta com o sentimento de culpa, o mais alto preço que se paga pelo pertencimento a uma civilização e seus interditos.

A ação, não importa se pensada ou praticada, sofre regulações por parte do superego, a instância psíquica que julga e pune, sem distinguir o ato efetuado do simplesmente pretendido. A instalação do conflito transfere tudo o que é agressivo para dentro, transformando a frustração em culpa e fortificando quase sempre o sintoma como uma punição pelo sentimento proibido.

A união de sujeitos em comunidade e sua integração ao processo coletivo vão contra o desenvolvimento individual, que tem como princípio o prazer e a felicidade egoísta. O altruísmo, em contraposição, é a ação cultural que impõe restrições e estabelece ideais a serem seguidos. O conflito instalado na junção dos dois planos estabelece uma disputa acirrada entre o individual e o coletivo, tornando irreconciliável e que se apresenta como indispensável ao convívio.

A razão não oferece nenhum consolo para a agressividade como obstáculo à civilização. O controle da natureza - que permite ao homem o domínio das perturbações na vida comunal sob diferentes formas de dominação – não elimina a culpa, não eliminando de igual modo a inquietação provocada pela angustia, que dessa conjunção se precipita. A felicidade como estado temporário, permanecerá como parte de uma história mal contada, como os restos de um sonho interrompido.

Di Cavalcanti, Onde eu estaria feliz - 1965.

19 de ago. de 2010


ISSO NÃO É...

Cala-te, boca, que, como não ignorará quem tiver o costume de ouvir e buscar os entendimentos subtis que vêm com as palavras e que são mais do que elas, significa, verdadeiramente, que quem falou morre por dizer o que aparentemente decidira calar.

Saramago, em A história do cerco de Lisboa


Perceber não é um processo puramente passivo, assim como julgar não acontece a despeito do campo afetivo. O conteúdo ideativo não está livre de manobras psíquicas, que encobrem a realidade por meio de representações distorcidas. A representação é uma repetição do já vivido, espaço aonde o princípio do prazer se prevalece de múltiplas garantias e o sujeito vislumbra o encontro do objeto desde sempre perdido.

O processo de repressão resulta em variantes estranhas, entre elas a negativa, que permite o reconhecimento do material reprimido, liberto e simultaneamente encoberto pela censura. Uma espécie de decisão que afirma e desafirma determinada posse ou atributo, assevera ao mesmo tempo em que questiona a existência de sua representação na realidade. Aquilo que é mau, estranho e externo ao ego começa a ser estranhamente idêntico ao interno e reconhecível.

O julgamento obedece ao teste da realidade, equivalendo a dizer que ele satisfaz aos interesses do ego. Já não importa dizer se o que foi percebido pode ou não ser integrado ao ego como representação, mas se pode ser redescoberto na percepção. Não importa se algo é bom ou ruim, mas de que modo o ego se apropria desse "algo", uma vez que as representações se originam de percepções repetidas.

A afirmação de alguma coisa substitui a união dessa coisa, enquanto a negativa representa a expulsão, obedecendo ao processo de destruição. A negativa constitui assim um modo de se apropriar de algum material inconsciente sob a forma do repúdio. O conteúdo de uma imagem ou uma idéia, quando abre caminho para a consciência, o faz de forma distorcida. “Isso não é” inclui a forma de julgamento que também quer dizer “isso é algo que eu preferiria reprimir”. Um juízo negativo é um substituto intelectual daquilo que não pode ser dito, colocando o pensamento em confronto com as restrições e com o que não é permitido.

Marcel Duchamp, A fonte

18 de ago. de 2010





UM MOMENTO DE PAUSA


"Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o consertar desconcertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo."

Guimarães Rosa em Grandes Sertões: Veredas



Como é possível fazer a distinção entre uma angústia real, como reação a um perigo visível e justificável, e uma angústia neurótica, enigmática e despropositada? Se desta distinção depende a escolha da intervenção clínica adequada, a imprecisão na distinção entre uma coisa e outra é a mesma que nos leva ao problema da fonte, se interna ou com base na realidade.

A questão sexual, desde sempre interessando à psicanálise, localiza o sofrimento neurótico no ego, cujas escolhas perversas são imperdoáveis. Se esforçando para deter o movimento de um id desenfreado - cujo prazer se presta a qualquer laço - e um superego feroz, que pune a qualquer deslize covarde, o ego tropeça, se esforça e muitas vezes se despedaça.

Como se não bastasse, descobre Freud mais tarde, as forças que brigam no interior da mente se fundem e se confundem com um estranho e despudorado prazer atrelado à pulsão de morte. A ameaça que vem de dentro é tão trágica quanto a que vem de fora. As ligações de afeto que o sujeito produz são mascaradas por deslocamentos de toda forma, não pode ser compreendida pela lógica nas quais se aloja. O inconsciente une experiência a expectativa com fusões de outra ordem.

A noção de perigo, derivada da experiência traumática, será sempre singular e inexplicável. Somente o trabalho de desfusionamento das conexões “lógicas” pode permitir uma outra relação com a realidade. A repetição da experiência traumática e o estado afetivo paralisante, aparentemente inadequado para os propósitos da realidade, faz apelo permanente ao sujeito diante do sofrimento e a necessidade de algum enquadre. A idéia do que é normal e o que é patológico, quando se trata da angustia, requer momentos de pausa.

17 de ago. de 2010


ILUSÃO



Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não pode nos dar, podemos conseguir em outro lugar.


Freud em "O futuro de uma ilusão", 1927

O desejo de uma construção intelectual capaz de solucionar todos os problemas da existência, não deixando nenhuma pergunta sem resposta, opera como ideal capaz de nos colocar a salvo da dúvida ou da contradição. A psicanálise, ao lidar com os aspectos da mente humana, toma essa busca interminável por consolo e proteção como parte das exigências emocionais e como alvo particular de suas investigações.

O adulto, na sua confrontação com o mundo, não prescinde de proteção, transferindo do pai para a religião ou para a ciência a construção de um saber capaz de lhe dar garantias, livrando-o do abandono e da incerteza, ou da angustia como condição. O respeito ao pai, transferido para o social, mantém a recompensa e segurança como prêmio pelo cumprimento das exigências éticas, repetindo o estado original de submissão.

A manutenção de alguma verdade que funcione como ilusão tem como contraponto a ciência, que se sustenta na provisoriedade dos construtos hipotéticos, não se sujeitando a nenhum limite ou restrição. Ao ser premiada pela efetividade no combate a diferentes formas de sofrimento, a ela é conferido um caráter normativo e consolador, correndo o risco de ser apropriada pelo campo da verdade e ser confundida com a religião.

A luta do espírito científico contra o pensamento religioso é o que permite o trabalho honesto de investigação. A razão, como garantia de elo entre os homens e progresso da ciência, exige a renuncia de garantias advindas da convicção. Negligenciar o inesperado e a incompletude indispensável ao avanço do pensamento é permanecer no infantilismo. Negar a existência da verdade, por outro lado, é obturar o pensamento e a luta permanente no campo da razão.


Foto de Fernando Rabelo, Lavador de vidros, Av. Rio Branco

16 de ago. de 2010

Uma questão cultural



Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada...


Trecho de Licença Poética, Adélia Prado



A pergunta sobre o feminino atravessa a história, retornando sempre e exigindo do pensamento inesgotáveis elaborações. Ainda que se atribua o ativo ao masculino e o passivo ao feminino, a proporção com que os dois se misturam e se sujeitam a flutuações, faz com que o sujeito sexuado não se reduza ao campo da anatomia, mas se veja inserido em um contexto mais amplo, cujas determinações lhe escapam.

Se os costumes sociais atribuem ao feminino uma condição passiva, é necessário que se reconheça a grande quantidade de atividade que o estado de passividade exige. A supressão da agressividade que favorece os impulsos masoquistas e ligam eroticamente as tendências destrutivas para dentro, resulta em um intenso trabalho psíquico, permeado de angústia e ambivalências fantasísticas.

A fantasia que toca o chão da realidade e aponta para a diferença anatômica entre os sexos, deixa marcas e abre caminho para a duplicidade. A descoberta da falta e o encobrimento da mesma não acontecem em igual escala nos dois casos, sendo a anatomia determinante da evitação, efetuada em registros contrários. Inveja e ciúme, narcisismo e vaidade são interpretadas como compensações da inferioridade, que predominam diante da incompletude inexorável.

O superego feminino já não pode ser pensando como puro efeito das renúncias incestuosas, já que a falta é anterior à ameaça. Os prejuízos de intensidade que sofre e o retardamento com que se instala – pela evidência da castração como um fato inadiável - conferem ao superego importância exclusivamente cultural, como delimitador dos caminhos entre o passivo e a agressividade. A remoção da atividade fálica para o caminho da feminilidade é uma questão cultural, com efeitos desde sempre dramáticos.



A visão após o sermão de Paul Gauguin, em 1888

13 de ago. de 2010

Só o esquecimento condensa




Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.


Mário de Andrade em Eu sou Trezentos...




O lugar que ocupa a interpretação dos sonhos na teoria freudiana é completamente distante do que supõe a crença popular e o misticismo. Algumas fórmulas nunca apresentadas por Freud, no entanto, passaram a fazer parte do imaginário popular e se confundem ainda hoje com a técnica psicanalítica. Para marcar a distinção entre uma coisa e outra, seguimos Freud numa de suas elaborações acerca da utilização do trabalho onírico como instrumento de investigação das forças psíquicas.

O sonho, como qualquer outra comunicação feita em análise, exige a transformação do que é manifesto em latente e a explicação de como o latente se tornou manifesto, demandando sentido. Preocupar-se o mínimo possível com o manifesto e investigar como o latente se tornou manifesto é o trabalho teórico e interpretativo que se faz a dois, no espaço analítico. Um sonho, para a psicanálise, jamais pode ser interpretado fora da transferência, entendido como espaço privilegiado que dá ao material onírico o colorido e a intensidade devida.

As associações que decorrem na exposição de um sonho têm como função preencher as lacunas e lançar luzes sobre diferentes partes, tornando-o inteligível. Quando a associação sofre interrupção o analista completa, com a legitimidade que lhe confere o acesso à biografia. A resistência para interpretar pertence à origem do material, que varia de lugar para lugar dentro de um mesmo sonho. Sendo responsável por lacunas, obscuridades e confusões que impedem o desvendamento completo do material reprimido.

O sonho encontra-se no mesmo registro dos sintomas e delírios. Como na psicose, é pelo afastamento do mundo real que ele revela o intolerável, podendo produzir angústias tal como a vida em vigília. São três as fontes que interferem e colaboram com o conteúdo onírico: os estímulos externos que surgem durante a sua feitura, os interesses diurnos que se mantém sob latência e o material reprimido, cuja satisfação pulsional foi impedida. O conteúdo do sonho, nos ensina Freud, é inesgotável e parcialmente incompreensível. Tal como a anatomia humana, ele possui umbigo.



Aleijadinho, Cristo no Horto das Oliveiras, na Via Sacra de Congonhas

12 de ago. de 2010

Por constituição


"Talvez não exista no mundo nenhuma legislação que originalmente puna a mentira.
Quer dizer que existe uma esfera do entendimento humano, não violenta a tal ponto que seja totalmente inacessível à violência: a esfera propriamente dita do "entendimento", a linguagem."


Walter Benjamim em Crítica da Violência, Crítica do Poder.

Como lidar racionalmente com os conflitos de interesses entre os homens, uma vez que eles não dispensam, em nenhum momento da história, o uso da violência como instrumento de coação? Se a lei, que dá origem ao direito e cujo objetivo é conter a violência social, nada mais é do que violência organizada, sob a forma de instituição?

Como lidar com a capacidade intelectual que se torna aparato de força e dominação, no momento em que a superioridade da força muscular é substituída pelo uso de instrumentos de destruição? Como lidar com o poder que se apresenta sobre a forma intelectual, mantendo a força bruta como forma de dominação? Quando a introdução das armas de fogo e a capacidade de sofisticação de instrumentos bélicos tornam-se conseqüência da superioridade de uma força sobre a outra, como lidar com o que nos ameaça de destruição?

Como organizar uma sociedade composta de forças desiguais, que se divide entre vencedores e vendidos, transformados em opressores e oprimidos? Como produzir um estado de equilíbrio, uma vez que a lei é feita pelos que venceram, deixando pouco espaço para os que se encontram em estado de sujeição? Como lidar com a dominação que se coloca acima da lei, fazendo valer a voz do oprimido tão somente pela violência da reação?

Como lidar com a dualidade pulsional, cujo fusionamento entre forças eróticas e destrutivas comparecem como componentes determinantes da ação? Como lidar com satisfação destrutiva muitas vezes facilitada por motivos eróticos e idealistas, que impossibilitam a distinção entre o exercício da crueldade e seu travestimento pela nobreza? Como lidar com aquilo que escapa e retorna sob novas formas de configuração? Reconhecendo que não podemos fazer outra coisa, que somos pacifistas porque somos obrigados, por motivos orgânicos, por constituição.


O mural de Guernica, Picasso em 1937

11 de ago. de 2010

Retorno ao fracasso


Saio de meu poema
como quem lava as mãos.

Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.

Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;

talvez como a camisa
vazia, que despi.

João Cabral de Melo Neto - Psicologia da composição


O retorno a Freud, do qual Lacan se faz arauto, se situa no questionamento da verdade, sem a qual não é possível discernir o rosto da máscara. A verdade, que se confunde com a realidade e se apresenta mascarada pela cautela, exibe, no mais ligeiro sinal de tropeço, o enigma que a embaraça. O fracasso da fala produz o desmascaramento da verdade contida na palavra aprisionada.

A verdade já não passa mais pelo pensamento, mas pelas coisas tomadas ao pé da letra. Na falha estreita demais para suportar o fingimento, na nuvem inacessível do sonho, no fascínio imotivado ou no impasse sedutor do absurdo, a verdade fala. A pergunta sobre quem fala lá onde “isso” sofre não se confunde mais com a expressão natural e a informação, mas exige reconhecimento de leis sobre as quais a linguagem se acomoda.

Na distinção entre significante e significado o analista se introduz, como parte da desordem. Se a sincronia significante garante o emprego exato do elemento, por sua diferenciação aos demais, a diacronia do significado reage historicamente, remetendo a outras significações que se engendram na captação da realidade. Alguma coisa excede e apenas o significante garante a coerência teórica do conjunto, distinguindo signo de linguagem.

Freud responsabiliza o “eu” pela desordem, que sustenta a pseudo-totalidade do organismo, amalgamando a hiância nas relações naturais. A primeira resistência à psicanálise é a instalação de um novo discurso, que substitui a compreensão pelo mal entendido e pela garantia advinda do impasse. O eu como noção operacional já não se presta mais a identificações imaginárias, é por ser despedaçado que ele toma a palavra.

O sintoma como função significante se distingue do que é natural para o saber médico, estabelecendo uma práxis degradada, que não atende às exigências de cura e felicidade. Não se trata de um pacto para além das razões do argumento, cujas manobras de cumplicidade dual visa obter efeitos de sucesso. Trata-se do drama patético de uma simbolização desnorteada, uma dívida simbólica que produz inadequação e denuncia a fraude do pensamento mágico.


Tela - Morte (Iberê Camargo)

10 de ago. de 2010

Transferência


"No fim das contas, a sabedoria dos psicanalistas torna-se efetivamente aquilo que o inconsciente fascista das revistas sensacionalistas acha que ela é: uma técnica entre outras de um 'racket' especial para manter irrevogavelmente aprisionados a ela homens sofredores e desamparados, de modo a comandá-los e explorá-los."

Theodor Adorno, Mínima Morália.


Em diferentes momentos da história, desde a histeria até os transtornos da modernidade, a catalogação e naturalização dos sintomas atende à exigências adaptativas, com interesse explícito de domesticar e produzir nos sujeitos uma gestalt acabada. O interesse da psicanálise em ouvir o que a doença tem a dizer não tem como finalidade a interferência benévola, não concernindo tampouco à compreensão das coisas e à coisificação do que se entende como humanidade.

As doenças falam e o que elas dizem está relacionado com as crises e inadaptações do sujeito à sociedade. A psicanálise é uma experiência dialética, cuja influência só pode ser exercida pela errância em torno do que representa a adaptabilidade, por meio de um não agir positivo que dê lugar à um agir na esfera da subjetividade. Ao analista não cabe aconselhar ou emitir pareceres, querer o bem do paciente ou permanecer na neutralidade. É na transferência que os momentos de errância permitem a dialética de alcance não normativo, mas de formato insistentemente inacabado.

O especial interesse pela pessoa do médico não representa o avanço da sugestionabilidade favorável, não cabendo ao analista ceder ou rejeitar, ser indelicado ou demonstrar indignação com as manifestações de afeto que lhe são dedicadas. Cabe a ele estar avisado acerca da nova neurose que a relação analítica instala, cujo sentido original se desloca e produz reviravoltas, referindo-se unicamente ao modo transferencial sustentado sob a borda do sintoma e os impasses que ele provoca.

Eliminar a neurose nova que com a transferência se instala equivale a uma nova tarefa terapêutica, livrando-se o paciente daquilo que na presença do médico se atualiza e aos poucos o desembaraça. Não concerne somente à compreensão das coisas, mas às reviravoltas em torno de uma situação nova e inteiramente surpreendente que a experiência analítica pode propiciar como prova. Pietismo, eficiência e coisificação do humano em contraposição ao que se pode se fazer sob condições mais favoráveis é o que sugere a psicanálise, ainda que os valores em jogo sejam diferentes daqueles vigentes para a sociedade.

Pintura - Tarsila do Amaral "Operários - 1933"

9 de ago. de 2010

Um personagem duvidoso




"Eu não gostava dos pais sagrados, e, decerto, de longa data, adquiri a certeza de que um pai não é mais do que um pai, em si uma personagem duvidosa, insuportável em seu papel, e eu tinha aprendido e gostado de representar o "pai do pai" de tal forma que essa empreitada de pensar em seu lugar o que ele deveria ter pensado para ser ele mesmo caía-me como uma luva."

Althusser em O futuro dura muito pouco



A interrogação sobre o que é um pai, como uma questão não resolvida, atravessa a teoria psicanalítica desde o pai da horda ao fantasma da criança espancada, culminando no Édipo como metáfora constituinte da realidade psíquica. Sem se apoiar no preconceito de uma realidade que faça sentido, a função paterna torna-se um termo de referência na experiência analítica.

A incerteza estrutural, decorrente da ausência de verificação da experiência vivida, implica no incontornável de uma abordagem que se sustenta tão somente pela fé no dito. “Pater semper incertus est” é a verdade reconhecida por Freud de onde o particular da língua se deriva, estabelecendo o campo da nomeação como determinante exclusivo de uma função sem garantias.

A paternidade passa a ser uma suposição, que oscila entre uma imagem degradada e depreciada de uma marca e o lugar de um saber absoluto sujeito à idealização. Sua presença, identificada com a figura da lei, introduz a capacidade normatizante não conformada, cujas rachaduras permitem o processo de superação do que não se cristaliza.

A mola do saber, sobre o qual se funda essa função, é a castração como dimensão trágica do sujeito. Refletindo a ambigüidade da ação, o caráter duplo da linguagem suporta o desconhecido e a incompletude, como furo no significante e o extremo da abstração. O pai assinala a falta de conformidade ao vazio da origem, com exigência de elaboração acerca do que se oferece como necessário e ao mesmo tempo impossível.



Paul Cézanne, Retrato de Louis-Auguste Cézanne (pai do artista)

6 de ago. de 2010

Especular



"O último olhar de um condenado é nítido como uma fotografia: vê até a pequenina formiga que sobe ao acaso pelo rude braço do verdugo..."

Mario Quintana

O reconhecimento precoce da imagem no espelho para o homem, diferente dos animas, estabelece uma complexa relação do organismo com a realidade. Diante de sua imagem refletida, mal estar e falta de coordenação motora precipitam o sujeito, obrigando-o a fabricar sobre si, de forma fantasmática, uma imagem que não corresponde inteiramente à realidade. Da insuficiência à antecipação, ele oscila entre o despedaçamento do corpo – como nos sonhos e estados alucintórios - até uma armadura identitária totalizante e alienada, que marcará para sempre seu desenvolvimento mental.

O aspecto instantâneo da imagem refletida resulta em um dinamismo libidinal problemático, fornecendo à estrutura ontológica do mundo um conhecimento paranóico. Antes que a linguagem lhe restitua a sua função, a identificação do sujeito com a especularidade o faz assumir uma forma imagética estranhamente predestinada. A imagem - uma linha de ficção discordante entre o eu e a realidade, no limiar do mundo visível - dá origem às identificações secundárias, que funcionam como normalização de uma libido desordenada.

São frágeis as linhas que definem a anatomia fantasística, podendo ser percebidas nos sintomas da esquize ou no espasmo da histeria. O narcisismo primário, que se mantém latente nesta semântica tardiamente instituída, desliza para o narcisismo secundário como função alienante do eu nas relações sociais. Na agressividade em relação ao outro – ainda que travestida de enamoramento – localizamos a fatalidade, os nós da servidão imaginária aos quais o sujeito se prende de modo irremediável. Os sofrimentos que deste nó resultam dão lugar às paixões humanas, verificados e trabalhados pela psicanálise em sua atuação na pólis.




Hieronymus Bosch - O Jardim das Delícias Terrenas (detalhe do painel central), 1504

5 de ago. de 2010

Quem sou eu?



O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.

Jean-Paul Sartre



O diretor de uma prisão comunica a três detentos a seguinte decisão: “Por razões que não lhes direi, devo libertar um de vós. Para tanto, remeto-os à seguinte prova: tens aqui cinco discos, três brancos e dois pretos. Sem dizer qual deles terei escolhido, fixarei em cada um de vós um disco fora do alcance do olhar. O primeiro a poder concluir, com base na lógica, sobre sua própria cor, será livre.” O diretor coloca um disco branco nas costas de cada um dos presos.

Após um certo tempo, os três dão juntos alguns passos na direção da porta, com base na seguinte lógica: eu sou branco e eis como sei. Se eu fosse um preto, cada um deles pensaria: se eu fosse um preto também, o terceiro concluiria que é branco, uma vez que só existem dois pretos. A lógica parecia perfeita se não fosse a expectativa em relação ao movimento do outro, que resulta em simultânea hesitação. Como elemento externo que interfere no processo lógico, a dúvida reintroduz em cada um dos sujeitos a questão.

A ambigüidade lógica revela uma dependência à estrutura temporal, que possibilita três momentos de evidência daquilo que não se vê: tempo de olhar, tempo de compreender e tempo de concluir. A asserção sobre si depende da reciprocidade e a equivalência do tempo próprio de ambos, enquanto a certeza só se confirma na precipitação. A conclusão precipitada de um dos três, depois da segunda hesitação, é o que permite a possibilidade de ultrapassar as portas da prisão.

É por meio desse sofisma que Lacan quer tomar o ato que gera certeza como sendo aquele que se dá no “só depois”. Ao mesmo tempo nos fazer pensar que a busca pela verdade só se atinge através dos outros. A inadequação em se afirmar como “eu sou” se inicia pelo que se sabe que não é, para em seguida poder afirmar o que se é e correr o risco de não ser. Funda-se aqui a causalidade psíquica por meio da identificação como fenômeno irredutível, sujeito a metamorfose na presença do semelhante.

As Meninas - Velázquez, 1656.

4 de ago. de 2010

Três tempos



Às vezes o tigre em mim se demonstra cruel
como é próprio da espécie.
Outras, cochila
ou se enrosca em afago emoliente
mas sempre tigre; disfarçado.

Carlos Drummond de Andrade, o Tigre


Entre os motivos que colocam em ação o mecanismo de repressão, a fantasia de espancamento associada a uma excitação prematura do órgão sexual, faz parte de um dos trabalhos de elaboração teórica mais complexos e decisivos para a psicanálise. A fantasia, ao ser prematuramente desenvolvida, se transforma em fonte de culpa, produzindo desvios sobre os quais o masoquismo se constituirá como primário, diferente do que se pensava até então.

Ver alguém sendo espancado, como primeiro tempo da fantasia, mistura prazer e repugnância ao intolerável da coisa explícita. O prematuro da função sexual que aí se fixa é afastado dos processos posteriores de desenvolvimento, submetendo à repressão o que se apresenta como anomalia. O desenvolvimento completo da fantasia, que dependerá de três tempos consecutivos, se dá por modificações em torno do autor, do objeto, do conteúdo e significado da cena reprimida.

Tais distorções levarão ao segundo tempo, aonde “ser espancado” não tem existência real, mas surge como uma necessidade de elaboração tardia. Aprende-se que “ser espancado” corresponde à privação de amor e humilhação, convergindo o sentimento de culpa e inferioridade com o amor sexual incestuoso e proibido. Quem bate ama, quem apanha se excita.

No terceiro tempo da fantasia, a forma sádica – o meu pai está batendo na criança, mas ele só ama a mim – tem como satisfação de igual modo o masoquismo. A catexia libidinal da porção reprimida carrega junto o sentimento de culpa, como substituto no lugar de quem apanha. A fantasia passiva persiste no inconsciente depois da repressão, conferindo à sexualidade infantil o valor de principal força motivadora na formação dos sintomas. O conteúdo perverso operando como avesso da neurose é o que delimita o campo da moral, sustentando de igual modo o vigor da fantasia.

Picasso, Nu au Plateau de Sculpteur

3 de ago. de 2010

Como quem conta carneiros e amansa




Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos


(Ana Cristina César em Contagem regressiva - Inéditos e Dispersos)


A sutil diferença entre o normal e o patológico é o ponto de interrogação que nos incita a pensar a uniformização das condutas sob a égide da farmacologia, disposta a vender “normalidade” em embalagens caras e de efeitos narcóticos francamente discutíveis. O famoso diagnóstico de “depressão” que invade os consultórios de psiquiatria, arrasta milagrosamente para debaixo do tapete a infelicidade, mantendo no social a urgência da alegria.

Entre o grave e o necessário na tristeza diante da vida, permanece a dúvida acerca do que é suportado como devido. Conceder ao sofrimento humano o estatuto de uma intervenção clínica é o que Freud vai elaborar de forma crítica, através de uma distinção puramente fenomenológica entre luto e a melancolia. (Luto e Melancolia, (1917 [1915]) Volume XIV, Obras Completas).

Em ambos os estados afetivos é a perda do objeto amado que vai determinar um tempo de recolhimento, marcado pelo desinteresse nas coisas do mundo e desânimo para a abertura de novas investidas. A perda do objeto amado constitui, todavia, uma excelente oportunidade para que a ambivalência se manifeste e se faça efetiva, exigindo do teste da realidade uma espécie de baliza.

É na perturbação da auto-estima, como efeito da identificação ao objeto perdido, que a natureza do sofrimento não se explica. Se no luto é o mundo que parece partido, fornecendo uma explicação para o sofrimento temporário e suscetível, na melancolia é o ego quem padece de remorso pelo desmascaramento que a dor produz nos dois sentidos.

Se no luto, desistir do objeto amado se transforma em incentivo ao ego para continuar vivo, o risco da melancolia, nos alerta Freud, é o suicídio. Na luta entre amor e ódio ao objeto, o ego se oferece como fonte de sacrifício. A ambivalência, como força motora do conflito, faz apelo ao teste da realidade e aos limites da intervenção clínica. A perda, de qualquer modo, se manterá sempre como limite intransponível entre o abismo e a vida.


Michelangelo (Creazione Adamo)

2 de ago. de 2010

Narcisismo




"... cada um tem o direito de pensar e escrever o que quiser, mas não tem o direito de apresentá-lo como uma coisa que não é".

Freud em A História do Movimento Psicanalítico, 1914

As modificações propostas por Jung, que determinaram seu rompimento com Freud e com a psicanálise, pretendiam a substituição da abordagem sexual por um sistema ético-religioso, destinado a distorcer os achados efetivos e elementares do freudismo. Foi em resposta a esta tentativa de alijamento de sua obra que Freud elaborou, em 1914, um importante aspecto de sua teoria, com o texto da Introdução ao Narcisismo. (Volume XIV, Obras Completas)

A relação erótica com os objetos do mundo versus a utilização do próprio corpo como objeto de prazer sexual estabelecem dois princípios em torno dos quais a libido se fixa: investimento narcísico - quando o próprio ego se coloca como objeto a ser investido e investimento objetal - quando os objetos do mundo se revestem de valor pela libido. Se em determinados momentos o desvio dos investimentos eróticos dos objetos do mundo em favor do próprio ego pode ser benéfico, em outros o excesso de erotização do próprio corpo pode conduzir a patologias graves.

Foi na observação da paranóia de Schreber que Freud reconheceu a introversão da libido sexual como perda da realidade, passando a pensar as dificuldades que este mecanismo produzia na abordagem clínica. Enquanto nas conversões histéricas, o ego apaixonado e fantasioso se presta como instrumento de trabalho, na paranóia o processo mórbido de megalomania e hipocondria fornece aos órgãos do corpo um investimento fantasmático descompromissado com a realidade externa.

O que se quer garantir, em ambos os casos, é a imortalidade do ego à custa de uma realidade sempre suspeitosa, de colorido sexual impreciso. No lugar da fratura que a sexualidade provoca, associada ao desprazer produzido pelo acúmulo de tensão, busca-se a ultrapassagem na ligação da libido aos objetos, que passam a se tornar amados e desejados para além do ego, idealizados em sua perfeição absoluta e insuspeita.

O narcisismo, que gira em torno do ser, do ter sido ou do que gostaria de ter sido, encontra na atitude amorosa a projeção de um ideal que oculta as falhas, as mesmo tempo em que as coloca em circulação. A perfeição de valor e incapacidade de abrir mão do prazer outrora desfrutado visa o atendimento das exigências sem restrições, enquanto o "estar amando" deflagra as desproporções.

A reprodução de sistemas especulativos que visam a eliminação da sexualidade retornam nos ideais de comportamento, ditando regras a serem seguidos de forma padronizada e objetiva. A psicanálise, ao correr o risco da distorção, insiste no apelo à autoria sem abrir mão da investigação.