livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.
Carlos Drummond de Andrade
ZERO À ESQUERDA
A sutura dá o nome à relação do sujeito com a cadeia significante, figurando como um elemento que falta e costura a cadeia, permitindo que ela exista. Faltar não é o mesmo que estar ausente, mas ultrapassar aquilo que se oferece como limitador do sentido. O fio condutor da análise toma emprestado o número zero na aritmética, para dissecar na seqüência dos números naturais a sutura que ele produz de um lugar desconhecido. Tal qual o sujeito diante da cadeia significante, o zero suporta as operações de abstração e unificação, ainda que ausente da seqüência estabelecida.
Milner, em A Sutura, segue a fórmula de Frege, segundo a qual um número é atribuído a um conceito, tornando-se a extensão dele. A atribuição suporta o número, subordinando o objeto à uma unidade e permitindo que ele seja substituído por outro idêntico. A verdade encontra-se no fato de que a coisa substituída – idêntica a si mesma – pode constituir um objeto de um juízo, tornando-se articulável e entrando na ordem discursiva. O idêntico a si mesmo é essencial para que a verdade exista.
Para que o número um passe a uma sucessão ordenada e a dimensão lógica ganhe autonomia, é necessária a presença do zero como não idêntico a si mesmo, como primeira coisa não real no pensamento, podendo e devendo fazer parte da cadeia associativa. O sistema de Frege funciona pela circulação de um elemento em cada um dos lugares aonde ele se fixa, contando o zero como um e suporte de uma seqüência numérica qualquer. Na ordem real, o número três, por exemplo, corresponde à ordem de três objetos, enquanto no discurso submetido à verdade ele é o quarto elemento, que marca a presença da falta na busca do sentido.
A inserção do sujeito na cadeia significante é pensada como o equivalente ao zero na cadeia numérica, como uma sutura que reordena e garante a possibilidade de uma ausência representativa. O sujeito é a sutura de uma falta, o que falta ao significante para ser o "um" definitivo. A liberdade de introduzir o sujeito neste lugar impreciso abre espaço para o pensamento lógico no lugar de manutenção de uma condição mística. Do animal marcado pela prática da linguagem surge o sujeito – descentrado e fadado a se sustentar como aquilo que sutura a cadeia, ao mesmo tempo em que lhe fornece vida.


















