23 de ago. de 2010


A felicidade quando vem, já vem carregada de saudade...

Guimarães Rosa em Grandes Sertões: veredas.


FELICIDADE

Com extraordinários graus de variação e de forma completamente inexplicável, a angustia é o afeto que acomete de forma indiscriminada e inesperada a todos os sujeitos. Atormentando de forma ruidosa na consciência ou despistadamente por detrás de um sintoma, este afeto possui relação direta com o sentimento de culpa, o mais alto preço que se paga pelo pertencimento a uma civilização e seus interditos.

A ação, não importa se pensada ou praticada, sofre regulações por parte do superego, a instância psíquica que julga e pune, sem distinguir o ato efetuado do simplesmente pretendido. A instalação do conflito transfere tudo o que é agressivo para dentro, transformando a frustração em culpa e fortificando quase sempre o sintoma como uma punição pelo sentimento proibido.

A união de sujeitos em comunidade e sua integração ao processo coletivo vão contra o desenvolvimento individual, que tem como princípio o prazer e a felicidade egoísta. O altruísmo, em contraposição, é a ação cultural que impõe restrições e estabelece ideais a serem seguidos. O conflito instalado na junção dos dois planos estabelece uma disputa acirrada entre o individual e o coletivo, tornando irreconciliável e que se apresenta como indispensável ao convívio.

A razão não oferece nenhum consolo para a agressividade como obstáculo à civilização. O controle da natureza - que permite ao homem o domínio das perturbações na vida comunal sob diferentes formas de dominação – não elimina a culpa, não eliminando de igual modo a inquietação provocada pela angustia, que dessa conjunção se precipita. A felicidade como estado temporário, permanecerá como parte de uma história mal contada, como os restos de um sonho interrompido.

Di Cavalcanti, Onde eu estaria feliz - 1965.

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