ESTAR AMANDO
Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar, nem pra rir
Socorro, alguma alma, mesmo que penada
Me entregue suas penas
Já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate, nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa
(...)
Arnaldo Antunes
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar, nem pra rir
Socorro, alguma alma, mesmo que penada
Me entregue suas penas
Já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate, nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa
(...)
Arnaldo Antunes
A mais remota e primitiva expressão de laço emocional, conhecida como identificação, representa o esforço do ego por moldar-se a partir de modelos adquiridos de fora, por sugestão. A percepção de uma nova qualidade externa é imediatamente seguida pela construção de um novo laço, mesclado de efeitos emocionais e com significações na vida intelectual.
O amor por si mesmo substituído pelo amor pelos outros, atua como o fator civilizador que transforma o egoísmo - ou puro narcisismo - em altruísmo bordejado de idealismo. As gradações no estado de "estar amando" dependem da valorização do objeto em defesa da própria valorização, o que pode resultar em um ego despretensioso e modesto em função de um objeto sublime e precioso. Danos a si próprio no “estar amando” correspondem à idealização do objeto em igual dimensão.
A satisfação nunca é completa e o objeto idealizado reduz-se necessariamente a um traço parcial de identificação. Um ego dividido entre a insatisfação consigo mesmo e o ideal destacado, reconhece na intimidade da relação diferentes graus de aversão e hostilidade, sujeitas à repressão. O destino do amor sexual de extinguir-se após a satisfação, encontra no afeto a garantia de sua duração, sujeitando-se à ambivalência como fator irredutível da relação.
Nos intervalos desapaixonados, o que se apresenta como primitivo é a revivência da necessidade de uma catexia duradoura que reenvia o "estar amando" para o campo satisfação narcísica como a base de todos os investimentos. Os extremos que dessa torção se derivam conduzem à cegueira e falta de piedade, regidos pelo diapasão do crime e outras formas de perversão. O ego se constitui, nos ensina Freud em Psicologia de grupo e análise do eu (1921), a partir das perdas, como efeito das ruínas amorosas e restos de idealização. A renúncia, base sobre a qual se tece a civilização, conduz o ego
ao seu lugar de origem, às voltas com a divisão.
O Grito, Edvard Munch
