20 de jul. de 2010

Depois disso...



"Aquilo que a memória amou fica eterno"
Adélia Prado

Memória em Freud não é lembrança, muito menos reminiscência, mas a base sobre a qual se funda o psiquismo. Não como um puro receptáculo de imagens revestidas de palavras, mas como um sistema composto de diferentes séries associativas. Lugar aonde as coisas se organizam não pelas leis da gramática, mas por um tipo de trilhamento particular e específico.

A representação dos objetos, nunca completamente adequada à coisa, vai se construindo peça por peça na relação com a linguagem, a cada dito. O aparelho psíquico é o aparelho de memória, com uma marca de intensidade sobre a qual a impressão produz efeitos imprevistos. Um traço qualquer se destaca da textura, tomado de quantidades e qualidades que facilitam as grades de contato e a busca de sentido.

A repetição dos trilhamentos significantes dá origem à memória e ao psiquismo. Na repetição, que exige a presença do tempo, a diferença aparece associada ao período. O movimento não é sincrônico, ou sempre idêntico ao pretendido, estranhos contrastes e suspeitas semelhanças produzem diacronias, abstrações imprevistas. Estamos frente ao aparelho psíquico, que funciona por deslocamento e condensação, ou como quer Lacan, por metáfora e metonímia.

A noção de temporalidade que o traço determina permite novos arranjos, novas trilhas. A memória não se confunde mais com um simples registro, mas se oferece como uma movimentação de traços reestruturados todos os dias. Que demandam a tradução permanente de um original sob a forma de ficção, servindo de ponto de apoio para o engendramento da realidade psíquica. Novos traços alteram os antigos, exigindo que na prática analítica só o “depois” determine - não de uma vez por todas, mas a cada vez - o que é isso.

Tela "A costureira" de Djanira