
"Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira."
Ferreira Gullar
Como na história individual, também faz parte da história de um povo o preenchimento das lacunas, com convicções contaminadas de desejo e aspectos repudiados pela natureza do seu conteúdo. O passado exerce uma enigmática atração sobre a imaginação, tal qual o encantamento da infância que se mantém na memória como uma época de ininterrupta felicidade. Sob o efeito de poderosas impressões primitivas, que escapam ao tratamento normal, o conteúdo das lembranças é invariavelmente, recheado de deformações.
Se uma descrição histórica é aceita como digna de crédito, cada parte que retorna afirma-se com força peculiar, exercendo uma influência poderosa sobre o resto do conteúdo em ação. O cerne da verdade se espalha para os erros que a envolvem, sendo impossível distinguir a presença de uma fantasia na realidade esquecida, ou evitar os efeitos que seu retorno provoca.
Freud, em Moisés e o Monoteísmo (1939 [1934-38] – Obras Completas, Volume XXIII) lança luz sobre a copiosa fenomenologia das religiões em paralelo à vida psíquica, para problematizar a forma pela qual a tradição opera na vida de um povo, tal qual do sujeito sempre em questão. Tomando o retorno dos traços mnêmicos do passado como base para compreensão da vida psíquica em seus desvios, ele se pergunta sobre a importância de uma tradição, sobre a forma com que ela se mantém, e sobre os conflitos que exigem decifração.
Ao se declarar incapaz de apagar os traços da história da origem da própria obra, que “o atormentou como um fantasma insepulto”, Freud publica um dos últimos e mais valiosos artigos, sob a ameaça de perseguição e como um alerta para os riscos da repetição. Como o intelecto se desvia sem qualquer aviso ao encontro das ilusões carregadas de desejo, a verdade de obra psicanalítica deverá ser mantida, juntamente com o seu autor, na perspectiva de uma ficção.