29 de set. de 2010


Hóspedes, turistas ou bárbaros? 




Não é como turistas nem como invasores, mas como hóspedes, que eles podem tomar o ar da cidade, e sem nela se sentirem bárbaros demais.”

Lacan em O Discurso de Roma



O que sustenta as redes virtuais - com seus múltiplos pactos de união - é um tema que nos instiga a repensar a questão do laço social, um antigo e conturbado tema para a psicanálise. Baseadas no escrito à maneira falada - cujo contentamento não se dá na simples precisão do discurso, mas numa sofisticada reconfiguração imagética de quem fala – este modelo de relação ultrapassa a pura reprodução do que se quer transmitir, colocando em cena estranhas tecituras e recentes moedas de troca.

A busca por fontes de informação que não se esgotam, unida à pressão de novas demandas sociais, nos faz pensar no que acontece com a realidade velada pelas transferências e resistências, neste “ocultamento” do objeto, concernido a partir da fugacidade de pequenos traços que o demarcam. O ajustamento de uma fala endereçada ao outro relança a questão do sujeito, atingido nas profundezas daquilo que o presume enquanto existente e ao mesmo tempo puro efeito de linguagem.

No lugar de uma suspensão hipotética alimentada por miragens, cabe aqui o confrontamento com a questão da linguagem, como experiência que prevalece e se entrevê e na qual o sujeito está radicalmente implicado. Na ação da fala-escrita algo se dá a conhecer, com exigências de temporalidade e uma distância inevitável entre o real e o sentido almejado. Nos cruzamentos de linguagem, os sujeitos se formam e se conformam, reconfigurando a cada lance um novo espaço. 

A eficácia do sistema simbólico e a irredutibilidade dos fatos constituídos num registro provisório, colocam em cena um sujeito virtual tal qual os demais, mantido pela via da artificialidade. Turistas, invasores e hóspedes são significantes que se reproduzem nesse espaço, fazendo oscilar, a cada nova hospedagem, o campo alienado da contemplação e o risco permanente da barbárie.  

Fotografia de Spencer Tunick, série de pessoas nuas.