19 de jul. de 2010

Ilusão e barbárie




"Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais.(...) Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror"

Walter Benjamim em Sobre o conceito de história

Em torno do trabalho de construção de uma civilização, duas tendências se unem e se constituem como base: a exploração da riqueza e sua distribuição, que inclui o homem como objeto a ser explorado. Quando olhamos para o passado e nos espantamos, ou nutrimos a ilusão de um controle sobre o presente, ou ainda quando nos arriscamos a emitir opiniões sobre o futuro, supomos alguma modificação resultante do trabalho. Alguma coisa nesta organização, no entanto, fracassa.

A exploração da natureza resulta em desastres ambientais, enquanto e a exploração do homem pelo outro cria desigualdades insuportáveis. Acrescentando o aspecto sexual nas relações de troca, a ampliação dos conflitos adquire colorido nas múltiplas e históricas barbáries, com as quais convivemos alarmados. O que há nessas duas tendências – explorar e distribuir - com a qual lidamos de forma sempre problemática?

No Futuro de uma ilusão (Freud, Obras Completas, Volume XXI) encontramos tratamento para a questão levantada. Tomando por base o conflito entre o desejo e a frustração – que tem como conseqüência a proibição - a relação do homem com o a civilização se revela como inviável. Sob o signo da coerção e obediência, sacrifícios e compensações nem sempre correspondem à trocas adequadas, mantendo sob tensão os movimentos de revolta.

Os desejos, ainda que domados, nascem de novo em uma criança, ao ser educada. Dois momentos de apaziguamento do desastre são por Freud apontados: a religião e a arte. Se no primeiro deles, sustentamos o pai – ou Deus - como ideal a ser preservado, no segundo substituímos as renúncias pulsionais por manifestações cujo sentido nos escapa. Sem manter a ilusão de que alguma saída em definitivo seja dada, é na ciência, enquanto campo ideal da psicanálise que, seguindo Freud, as soluções devem ser pensadas.

Cildo Meireles - Zero Dollar - litogravura sobre papel