9 de ago. de 2010

Um personagem duvidoso




"Eu não gostava dos pais sagrados, e, decerto, de longa data, adquiri a certeza de que um pai não é mais do que um pai, em si uma personagem duvidosa, insuportável em seu papel, e eu tinha aprendido e gostado de representar o "pai do pai" de tal forma que essa empreitada de pensar em seu lugar o que ele deveria ter pensado para ser ele mesmo caía-me como uma luva."

Althusser em O futuro dura muito pouco



A interrogação sobre o que é um pai, como uma questão não resolvida, atravessa a teoria psicanalítica desde o pai da horda ao fantasma da criança espancada, culminando no Édipo como metáfora constituinte da realidade psíquica. Sem se apoiar no preconceito de uma realidade que faça sentido, a função paterna torna-se um termo de referência na experiência analítica.

A incerteza estrutural, decorrente da ausência de verificação da experiência vivida, implica no incontornável de uma abordagem que se sustenta tão somente pela fé no dito. “Pater semper incertus est” é a verdade reconhecida por Freud de onde o particular da língua se deriva, estabelecendo o campo da nomeação como determinante exclusivo de uma função sem garantias.

A paternidade passa a ser uma suposição, que oscila entre uma imagem degradada e depreciada de uma marca e o lugar de um saber absoluto sujeito à idealização. Sua presença, identificada com a figura da lei, introduz a capacidade normatizante não conformada, cujas rachaduras permitem o processo de superação do que não se cristaliza.

A mola do saber, sobre o qual se funda essa função, é a castração como dimensão trágica do sujeito. Refletindo a ambigüidade da ação, o caráter duplo da linguagem suporta o desconhecido e a incompletude, como furo no significante e o extremo da abstração. O pai assinala a falta de conformidade ao vazio da origem, com exigência de elaboração acerca do que se oferece como necessário e ao mesmo tempo impossível.



Paul Cézanne, Retrato de Louis-Auguste Cézanne (pai do artista)