10 de set. de 2010



NA CORDA BAMBA


...mas sei que uma dor assim pungente
não há de ser inutilmente
a esperança
dança na corda bamba de sombrinha
e em cada passo dessa linha
pode se machucar...

Aldir Blanc



Diante das inúmeras possibilidades de tamponamento da angustia, a pergunta sobre qual é a dose suportável de admissão desse estado afetivo torna-se um dilema para a clínica em suas diferentes fases de construção. O discurso analítico, por não oferecer nenhuma rede de proteção, considera o tema com os devidos cuidados, de tal modo que ele não caia na imprecisão ou, o reverso disso, fique insuportavelmente perto, impedindo o trabalho de decifração.

O olhar sobre si mesmo sem garantias e a exposição das certezas incontestáveis, presa aos limites da contradição, produz inquietações e coloca à prova o sujeito falante, que espera do outro a confirmação da sua existência. Vinda da relação com o significante, a angustia tem por base a fantasia, sustentada por este olhar alheio e a interrogação acerca do que ele quer de mim. A resposta que se espera nunca é completa e definitiva, ficando sujeita a opacidades, momentos de imprecisão e sutis variações.

É na dialética entre o desejo e a identificação narcísica - como duas etapas que se atam – que a angustia aparece, desarvorando, transtornando e desorganizando o sujeito da certeza. Diferente da inibição, que paralisa o movimento e impede o desenrolar dos gestos, a angustia exige o movimento do equilibrista na corda bamba, se arriscando a viver sem proteção. O estado de estar emocionado se aproxima da catástrofe, do transtorno e da perturbação, colocando à prova o inquietante do desejo.

A angustia é o afeto que fica à deriva de forma deslocada e enlouquecida, presa aos significantes recalcados que a amarram, exigindo interpretação. O analista interpreta em situação de igual instabilidade, fazendo incidir o sinal do ego sobre o dilema da castração. Ao exigir reconhecimento, o ego não suporta a unidade que lhe é imposta, esgotando a função do outro que o reduz neste lugar. É na agudeza da angustia que o engano se desfaz e o analista se expõe.