
São três as formas de sofrimento humano sobre os quais nenhum esforço é suficiente para garantir proteção: a decadência do próprio corpo – cujo adiamento inevitável nos coloca frente a uma estranha noção de tempo – as intempéries do mundo externo - com suas impiedosas formas de destruição – e o mais penoso de todos, a relação com o outro – assunto que se tornou alvo de nossa especial atenção.
Todo sofrimento é uma sensação e a busca de situações prazerosas funciona como um escudo de proteção. O caminho das drogas e a busca por substâncias entorpecedoras propiciam refúgio interno e melhores condições de sensibilidade, produzindo um grau de independência do mundo externo e funcionando como amortecedor das preocupações. Em certas condições, contudo, podem representar perigo e dano, além de desperdício de cotas de energia que poderiam ser empregadas em melhores condições.
A fonte de trabalho psíquico e intelectual – como o artista que cria ou o cientista que descobre verdades – são reconhecidas socialmente como satisfações mais refinadas. Mesmo assim não cria uma armadura impenetrável contra as investidas do destino, muito menos nos torna completamente independentes da realidade. A arte, que tantas vezes nos serve como suave narcose, não é suficiente para nos fazer esquecer as aflições e a pressão das necessidades diárias.
O amor sexual, colocado acima de todas as sensações, se apresenta nas canções românticas como resposta ideal para o sofrimento e a solidão. Sexo e civilização, contudo, produzem uma estranha combinação, aonde o espaço para o terceiro é eliminado em busca de um tipo particular de satisfação. A sensação de desamparo e infelicidade com o rompimento deste tipo de união revela o quão indefeso nos tornamos quando estamos entregues a uma paixão.
As frustrações da vida sexual surgem mescladas de um grau de hostilidade sujeitas à repressão. A aproximação extrema e o distanciamento necessário, exige a busca da distância intermediária, nunca ajustadamente perfeita. Como na metáfora dos porcos-espinhos, proposta por Shopenhauer, aproveitamos o calor do outro pra não morrermos congelados, e nos afastamos vez por outra, para garantir a existência do circuito civilizatório, mesclado por esse borrão.
Escultura de Camile Claudel