
"No fim das contas, a sabedoria dos psicanalistas torna-se efetivamente aquilo que o inconsciente fascista das revistas sensacionalistas acha que ela é: uma técnica entre outras de um 'racket' especial para manter irrevogavelmente aprisionados a ela homens sofredores e desamparados, de modo a comandá-los e explorá-los."
Theodor Adorno, Mínima Morália.
Em diferentes momentos da história, desde a histeria até os transtornos da modernidade, a catalogação e naturalização dos sintomas atende à exigências adaptativas, com interesse explícito de domesticar e produzir nos sujeitos uma gestalt acabada. O interesse da psicanálise em ouvir o que a doença tem a dizer não tem como finalidade a interferência benévola, não concernindo tampouco à compreensão das coisas e à coisificação do que se entende como humanidade.
As doenças falam e o que elas dizem está relacionado com as crises e inadaptações do sujeito à sociedade. A psicanálise é uma experiência dialética, cuja influência só pode ser exercida pela errância em torno do que representa a adaptabilidade, por meio de um não agir positivo que dê lugar à um agir na esfera da subjetividade. Ao analista não cabe aconselhar ou emitir pareceres, querer o bem do paciente ou permanecer na neutralidade. É na transferência que os momentos de errância permitem a dialética de alcance não normativo, mas de formato insistentemente inacabado.
O especial interesse pela pessoa do médico não representa o avanço da sugestionabilidade favorável, não cabendo ao analista ceder ou rejeitar, ser indelicado ou demonstrar indignação com as manifestações de afeto que lhe são dedicadas. Cabe a ele estar avisado acerca da nova neurose que a relação analítica instala, cujo sentido original se desloca e produz reviravoltas, referindo-se unicamente ao modo transferencial sustentado sob a borda do sintoma e os impasses que ele provoca.
Eliminar a neurose nova que com a transferência se instala equivale a uma nova tarefa terapêutica, livrando-se o paciente daquilo que na presença do médico se atualiza e aos poucos o desembaraça. Não concerne somente à compreensão das coisas, mas às reviravoltas em torno de uma situação nova e inteiramente surpreendente que a experiência analítica pode propiciar como prova. Pietismo, eficiência e coisificação do humano em contraposição ao que se pode se fazer sob condições mais favoráveis é o que sugere a psicanálise, ainda que os valores em jogo sejam diferentes daqueles vigentes para a sociedade.
Pintura - Tarsila do Amaral "Operários - 1933"