6 de out. de 2010



PSICANÁLISE OU POLÍTICA?


“Todo passo à frente tem somente a metade do tamanho que parece ter a princípio.”

Johann Nestroy citado por Freud em Análise terminável e interminável.


A aposta em um nível de normalidade psíquica absoluta, que impeça qualquer possibilidade de conflito, é uma tarefa impossível. Não estamos livres de impedimentos neuróticos e censurar o analista por não nos ter livrado de todos os sofrimentos, de forma permanente e definitiva, é um equívoco. Qualquer solução de conflito só é válida para uma força específica, devendo ser mantida a ambigüidade que faz com que a dialética caminhe.

A análise capacita o ego a atingir maturidade e força para empreender revisões constantes dos processos. Diferente de um domínio intelectual apoiado em generalizações, regras e leis que tragam ordem ao caos, simplificando o mundo dos fenômenos e falsificando os processos de desenvolvimento e mudança, a análise se propõe a um permanente trabalho de elaboração e novas conquistas.
  
Os estados de transição, muito mais comuns do que os estados opostos e nitidamente diferenciados, são feitos de processos incompletos e parciais, misturados com resíduos antigos. Vez por outra nos surpreendemos com fenômenos residuais ou pendências parciais persistindo lado a lado com o que foi superado, produzindo tensão e desperdício de energia. Mesmo no desenvolvimento normal, a transformação nunca é completa e definitiva.

Tomar a clareza de nossa concepção interna como medida de convicção capaz de assegurar o controle de tudo, é ignorar o jogo de forças internas que lutam entre si, de forma ambígua.  Além disso, despertar conflitos não manifestos ou fora de hora, ou tentar tornar latente o que permanece reprimido, é expor o sujeito ao sofrimento e frustração sob o risco do desperdício. O melhor, sempre inimigo do bom, luta contra a inércia e a solução incompleta. Se não existe uma regra para a ocasião correta, como fazer ladrar os cães sem apelar para o retrocesso, ou para a destruição dos avanços já obtidos? 



4 de out. de 2010


Mais do que reminiscências

O dom de despertar no passado as centelhas de esperança é privilégio exclusivo do historiador também convencido de que os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.

Walter Benjamim, Sobre o conceito de história




A reminiscência é uma forma de recordar o já vivido como um fato consumado, fechado e sem alternativa. Como um lamento histérico, alimentado pelo constante retorno sobre si mesmo e cercado por aprisionamentos e impasses intransponíveis, ela é feita de um queixume insistente, capaz de reproduzir por anos a fio a mesma ladainha. A reminiscência é o que impede o paradoxo e sustenta a fantasia.

Quais são as alternativas de cura diante deste insistente retorno, é a pergunta de Freud faz, ao se dar conta da compulsão à uma monótona repetição, que se alimenta pela reiteração de velhos temas, idéias e lembranças anteriormente vividas. O desdobramento do conteúdo manifesto, pela via da associação livre, reconfigura as velhas tramas ao mesmo tempo em que satura os temas repetidos.

Rodopiar em torno de um ponto cego, ou tentar refazer o mesmo caminho é o que permite a instalação de uma força redobrada de tenaz persistência, como uma exigência de satisfação que não tem fim, marcando a presença de algo impossível. A tentativa de fisgar mais uma vez a satisfação que falta é a causa da insistência, feito a busca de uma estranha felicidade composta de fragmentos da vida infantil.

A reminiscência interrompe o processo dialético, mantendo o sujeito aprisionado à um conteúdo inalterável e de teor ideativo. O trabalho analítico - que se propõe a deslocar o sujeito do campo obscuro de suas fantasias, recuperando a sua capacidade de articulação crítica – possui similaridades com o desenrolar de um processo político. Cujo olhar para o passado, ao se congelar, denuncia o fracasso e impede que o movimento seja mantido.


Fotografia - Soldados com bandeiras vermelhas marcham em direção à Praça Vermelha, em Moscou. A capital russa sediou diversas cerimônias para marcar os 60 anos da vitória aliada sobre os nazistas.