9 de jul. de 2010

A mulher fal(h)a




A mulher Freud entregou aos poetas, não há como explicá-la. Os poetas, por sua vez, versaram sobre essa existência misteriosa, chamando de rasgo de beleza o vazio produzido pela indefinição de uma marca. Lacan foi mais longe, afirmou que a mulher não existe, senão como uma impossibilidade. O que há com a mulher, este ponto de fixação sobre o qual nenhum saber se sabe?

A saída do Édipo é o eixo de inflexão sobre o qual a questão se abre. O mito, como uma ficção definidora de lugares de repetição, aponta para a impossibilidade de uma simetria entre os pares, abrindo uma fresta para a interrogação que virá mais tarde: o homem escolhe o pênis em troca do objeto amado, mas o que tem a mulher a perder afinal, com essa retirada?

Enquanto no menino o objeto amado permanece sendo a mulher/mãe, a troca do objeto genital para o pai e a renúncia que se segue a esta escolha, na menina, não se explica por simples dedução das partes. Na esfera da ligação inaugural com a mãe, em ambos os sexos, tudo é sucumbido a uma repressão inexorável, obscurecendo a gama de motivos que leva ao afastamento posterior, ou à substituição pela figura do pai como objeto desejado.

A oscilação entre a passividade e a atividade revela a intensidade com que o masculino e o feminino incidirão sobre a sexualidade, reduzindo a anatomia ao destino no lugar de pura fonte de causalidade. Se a passividade sucumbe ao risco de devoramento materno, a urgência da atividade indica um modo de estar no mundo inevitável, tanto para o homem quanto para a mulher.

Um meio de suavizar essa contradição reside no abandono das leis biológicas, interessando tão somente o movimento e a acidentalidade. O caminho para descoberta da feminilidade é o de se estar lá, ainda que não-toda, mas à toda, em toda parte. A mulher não existe, mas fala, nos ensinando que há algo a mais, para além do falo.