
O recalque é um conceito que não poderia ser pensado antes da idéia freudiana de inconsciente, cujo conteúdo é o produto desta descoberta. São os efeitos desta operação psíquica que nos fazem tatear ainda hoje no escuro, em busca do material oferecido de través à investigação analítica.
A verdadeira fonte da repressão deriva da força pulsional, associada a algum desenvolvimento desinibido da fantasia, represado em sua satisfação. Os derivados do reprimido não desaparecem, sofrem distorções, modificando as condições pelas quais o prazer se realiza.
O destino de uma idéia é decidido pela sua força (quantidade) e pelo afeto (qualidade) a ela atribuído, cuja ligação não corresponde a nenhuma lógica previsível. O conteúdo ideacional pode ser um sintoma, geralmente coberto de disfarces e com pouca possibilidade associativa. Prato cheio, no entanto, para as terapias breves, cuja remoção não leva em consideração a fonte e os desvios.
A angustia, nos diz Lacan, é o único afeto que não engana. A ele nenhuma idéia se prende, nenhum sintoma se realiza. Senão sob a forma do vazio, sob a forma do objeto para sempre perdido, aquele que nunca existiu, mas continua fazendo uma falta incrível. Quando o paciente nos procura com algum sofrimento psíquico, propomos o desfazer das teias dramáticas desse inconsciente, detentor do material recalcado que tanto lhe aflige.
Um sujeito partido, às voltas com a questão da morte e o sofrimento causado pelos encontros mal sucedidos exige de nós a cura, conselho, milagre, magia. Retirar do inconsciente toda a carga metafísica, dando a ele o estatuto de materialidade, lentamente percebida nas linhas de um discurso repetido, não é prometer a cura. A cura do queijo talvez, um dia.
Rio, 05 de Julho de 2010.