8 de jul. de 2010

Sexualidade e civilização




Não se pode escapar das restrições impostas ao processo civilizatório, cujas regras se distinguem pelos diferentes modos de organização. Em todas elas, no entanto, a questão sexual assume lugar de destaque, produzindo antagonismos entre a constituição individual dos sujeitos e as exigências impostas pela sociedade.

Nas sociedades modernas a vida urbana, sofisticada e intranqüila, estabelece a busca pela eficiência, que se une à ânsia pelos prazeres e ao encorajamento da sensualidade, transformando o cotidiano em um estado de permanente tensão. A pressa e agitação fazem do prazer uma obrigação, aumentando nos sujeitos o grau de insatisfação. Paralelamente, o aumento do controle se expande de forma avassaladora, impondo novas formas de satisfação.

A tarefa de dominar as pulsões sexuais, que exige um dispêndio enorme de força psíquica, cria uma maior disposição para as neuroses, enquanto a atividade sexual regulada pela civilização estabelece as regras pelas quais os sujeitos são enquadrados em um mesmo padrão de comportamento, reconhecido como ‘normal’. Ao se destacar o aspecto sexual como protótipo para as demais reações diante a vida, o que se busca é o abandono da naturalização patologizante imposta pelas organizações.

Sem deixar de considerar que o deslocamento do objetivo sexual para a realização de atividades sublimatórias - tais como a arte, a política, o esporte - contribui para o avanço cultural, é preciso ter claro que ela não garante a eliminação do desejo sexual. E que as regras para a sua contensão obrigatoriamente falham. O reconhecimento de tais falhas, nos ensina a psicanálise, também contribue para a civilização.

Pintura de Picasso