
Às vezes o tigre em mim se demonstra cruel
como é próprio da espécie.
Outras, cochila
ou se enrosca em afago emoliente
mas sempre tigre; disfarçado.
Carlos Drummond de Andrade, o Tigre
Entre os motivos que colocam em ação o mecanismo de repressão, a fantasia de espancamento associada a uma excitação prematura do órgão sexual, faz parte de um dos trabalhos de elaboração teórica mais complexos e decisivos para a psicanálise. A fantasia, ao ser prematuramente desenvolvida, se transforma em fonte de culpa, produzindo desvios sobre os quais o masoquismo se constituirá como primário, diferente do que se pensava até então.
Ver alguém sendo espancado, como primeiro tempo da fantasia, mistura prazer e repugnância ao intolerável da coisa explícita. O prematuro da função sexual que aí se fixa é afastado dos processos posteriores de desenvolvimento, submetendo à repressão o que se apresenta como anomalia. O desenvolvimento completo da fantasia, que dependerá de três tempos consecutivos, se dá por modificações em torno do autor, do objeto, do conteúdo e significado da cena reprimida.
Tais distorções levarão ao segundo tempo, aonde “ser espancado” não tem existência real, mas surge como uma necessidade de elaboração tardia. Aprende-se que “ser espancado” corresponde à privação de amor e humilhação, convergindo o sentimento de culpa e inferioridade com o amor sexual incestuoso e proibido. Quem bate ama, quem apanha se excita.
No terceiro tempo da fantasia, a forma sádica – o meu pai está batendo na criança, mas ele só ama a mim – tem como satisfação de igual modo o masoquismo. A catexia libidinal da porção reprimida carrega junto o sentimento de culpa, como substituto no lugar de quem apanha. A fantasia passiva persiste no inconsciente depois da repressão, conferindo à sexualidade infantil o valor de principal força motivadora na formação dos sintomas. O conteúdo perverso operando como avesso da neurose é o que delimita o campo da moral, sustentando de igual modo o vigor da fantasia.
Picasso, Nu au Plateau de Sculpteur