
A inscrição de um pensamento na cultura e sua elevação ao estatuto de obra, na ordem do pensamento, é a forma acumulada com que ele se organiza e se disponibiliza para a troca. Assim, só existe obra, no sentido estrito, se publicada. Furtar-se a este dispositivo é renunciar à sua inscrição, tal como o pensamento externo da loucura. Que uma vez publicada e absorvida passa a ser reconhecida como produto, quase sempre associado à arte. A convocação de um pensamento pela ciência e pela cultura deriva de seus contornos e suas formas de absorção.
O que constitui a psicanálise como uma obra inscrita e absorvida pela cultura é, ainda hoje, uma questão a ser pensada. O esforço de Freud para acomodar suas idéias ao contexto de uma ciência normal, resulta no desvio sob a forma de obra, suspeitando dos limites de um pensamento que oscila entre a loucura e o fracasso. A relação com a verdade, que exige o aparente e necessário recuo, lança para o futuro a decisão entre o delírio de uma teoria para além do que se é capaz de admitir e a verdade na paranóia, com a qual a cultura não é capaz de lidar. (Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de paranóia, Volume XII, Obras Completas).
Verificamos no pensamento de Freud, uma estratégia exemplar. Suas associações, que giram em torno do fracasso, resultam numa renúncia à ciência normal, premiada com jubileus e laboratórios, inscrita no campo fúnebre da cultura. O “bando selvagem” ao qual ele viu seu pensamento se acomodar, sustenta a publicação como excremento e suporte de um pensamento inacabado, que não dispensa a emergência de uma obra. Trata-se, por que não dizer, de uma escrita de pretensões artísticas, com incessantes frases complexas, que não dispensam, no entanto, a urgência da transmissibilidade.
Lacan, por sua vez, praticou o “semidizer”, que implica em certas proposições de saber que só se deixam apreender como digressões, fragmentos poéticos impregnados de prudência e ética. Problematizou a escrita freudiana no tocante à sua relação com a verdade, abolindo dela a pretensão científica, como redutora e detentora do campo das obscuridades. Sustentou a disjunção e manteve a psicanálise como produto de uma cultura que suporta em seu bojo a dinâmica de um saber fragmentado. Absorvida a cada nova transmissão, somente pela metade.
Pintura de Salvador Dali