
"Talvez não exista no mundo nenhuma legislação que originalmente puna a mentira.
Quer dizer que existe uma esfera do entendimento humano, não violenta a tal ponto que seja totalmente inacessível à violência: a esfera propriamente dita do "entendimento", a linguagem."
Walter Benjamim em Crítica da Violência, Crítica do Poder.
Como lidar racionalmente com os conflitos de interesses entre os homens, uma vez que eles não dispensam, em nenhum momento da história, o uso da violência como instrumento de coação? Se a lei, que dá origem ao direito e cujo objetivo é conter a violência social, nada mais é do que violência organizada, sob a forma de instituição?
Como lidar com a capacidade intelectual que se torna aparato de força e dominação, no momento em que a superioridade da força muscular é substituída pelo uso de instrumentos de destruição? Como lidar com o poder que se apresenta sobre a forma intelectual, mantendo a força bruta como forma de dominação? Quando a introdução das armas de fogo e a capacidade de sofisticação de instrumentos bélicos tornam-se conseqüência da superioridade de uma força sobre a outra, como lidar com o que nos ameaça de destruição?
Como organizar uma sociedade composta de forças desiguais, que se divide entre vencedores e vendidos, transformados em opressores e oprimidos? Como produzir um estado de equilíbrio, uma vez que a lei é feita pelos que venceram, deixando pouco espaço para os que se encontram em estado de sujeição? Como lidar com a dominação que se coloca acima da lei, fazendo valer a voz do oprimido tão somente pela violência da reação?
Como lidar com a dualidade pulsional, cujo fusionamento entre forças eróticas e destrutivas comparecem como componentes determinantes da ação? Como lidar com satisfação destrutiva muitas vezes facilitada por motivos eróticos e idealistas, que impossibilitam a distinção entre o exercício da crueldade e seu travestimento pela nobreza? Como lidar com aquilo que escapa e retorna sob novas formas de configuração? Reconhecendo que não podemos fazer outra coisa, que somos pacifistas porque somos obrigados, por motivos orgânicos, por constituição.
O mural de Guernica, Picasso em 1937