
Acima de todas as formas de representação, o olhar é o modo mais íntimo pelo qual o sujeito, como em espelho, é reconhecido do lado de fora de si mesmo. É na presença desta aparição imagética que algo se garante como existente, sabendo, no entanto, que as coisas não se passam bem assim.
Esse olhar que nos reconhece, não nos mostra. Há mais alguma coisa, mais além, que não sou e está em mim e instaura uma fratura, uma esquisitice que não se acomoda completamente.
No campo do olhar as coisas são contraditórias: as coisas me olham e eu as vejo. O dar-se a ver gratuito nesta troca de olhares, faz com que o mundo, que nos olha, provoque em nós o sentimento de estranheza. Ao contrário do sonho, aonde estranhamente nos reconhecemos e a ausência do olhar dá lugar à sobredeterminação.
Diante da imagem fragmentada produzida pelo olhar, é preciso lançar mão de uma máscara. Que seja capaz de sustentar o despedaçamento e criar um invólucro garantidor de alguma unidade. Uma pele separada de si mesmo para cobrir a armação de um escudo, ou uma proteção que seja capaz de suportar o jogo da vida e os efeitos da morte dentro de si. Suportando mais ainda o dar e receber do semelhante, na luta escópica em torno de uma existência oscilante.
O olhar busca a completude, em si mesmo e no outro. O apetite diante da imagem que satisfaz une desejo e falta, tornando voraz o que é disjuntivo. O olhar que desfalece diante dos encantos da fascinação é o mesmo que estranha a própria imagem, revelando a presença do duplo em permanente exposição. A máscara serve de anteparo e com ela o sujeito oscila entre o dar-se a ver e a ilusão.