6 de ago. de 2010

Especular



"O último olhar de um condenado é nítido como uma fotografia: vê até a pequenina formiga que sobe ao acaso pelo rude braço do verdugo..."

Mario Quintana

O reconhecimento precoce da imagem no espelho para o homem, diferente dos animas, estabelece uma complexa relação do organismo com a realidade. Diante de sua imagem refletida, mal estar e falta de coordenação motora precipitam o sujeito, obrigando-o a fabricar sobre si, de forma fantasmática, uma imagem que não corresponde inteiramente à realidade. Da insuficiência à antecipação, ele oscila entre o despedaçamento do corpo – como nos sonhos e estados alucintórios - até uma armadura identitária totalizante e alienada, que marcará para sempre seu desenvolvimento mental.

O aspecto instantâneo da imagem refletida resulta em um dinamismo libidinal problemático, fornecendo à estrutura ontológica do mundo um conhecimento paranóico. Antes que a linguagem lhe restitua a sua função, a identificação do sujeito com a especularidade o faz assumir uma forma imagética estranhamente predestinada. A imagem - uma linha de ficção discordante entre o eu e a realidade, no limiar do mundo visível - dá origem às identificações secundárias, que funcionam como normalização de uma libido desordenada.

São frágeis as linhas que definem a anatomia fantasística, podendo ser percebidas nos sintomas da esquize ou no espasmo da histeria. O narcisismo primário, que se mantém latente nesta semântica tardiamente instituída, desliza para o narcisismo secundário como função alienante do eu nas relações sociais. Na agressividade em relação ao outro – ainda que travestida de enamoramento – localizamos a fatalidade, os nós da servidão imaginária aos quais o sujeito se prende de modo irremediável. Os sofrimentos que deste nó resultam dão lugar às paixões humanas, verificados e trabalhados pela psicanálise em sua atuação na pólis.




Hieronymus Bosch - O Jardim das Delícias Terrenas (detalhe do painel central), 1504