19 de ago. de 2010


ISSO NÃO É...

Cala-te, boca, que, como não ignorará quem tiver o costume de ouvir e buscar os entendimentos subtis que vêm com as palavras e que são mais do que elas, significa, verdadeiramente, que quem falou morre por dizer o que aparentemente decidira calar.

Saramago, em A história do cerco de Lisboa


Perceber não é um processo puramente passivo, assim como julgar não acontece a despeito do campo afetivo. O conteúdo ideativo não está livre de manobras psíquicas, que encobrem a realidade por meio de representações distorcidas. A representação é uma repetição do já vivido, espaço aonde o princípio do prazer se prevalece de múltiplas garantias e o sujeito vislumbra o encontro do objeto desde sempre perdido.

O processo de repressão resulta em variantes estranhas, entre elas a negativa, que permite o reconhecimento do material reprimido, liberto e simultaneamente encoberto pela censura. Uma espécie de decisão que afirma e desafirma determinada posse ou atributo, assevera ao mesmo tempo em que questiona a existência de sua representação na realidade. Aquilo que é mau, estranho e externo ao ego começa a ser estranhamente idêntico ao interno e reconhecível.

O julgamento obedece ao teste da realidade, equivalendo a dizer que ele satisfaz aos interesses do ego. Já não importa dizer se o que foi percebido pode ou não ser integrado ao ego como representação, mas se pode ser redescoberto na percepção. Não importa se algo é bom ou ruim, mas de que modo o ego se apropria desse "algo", uma vez que as representações se originam de percepções repetidas.

A afirmação de alguma coisa substitui a união dessa coisa, enquanto a negativa representa a expulsão, obedecendo ao processo de destruição. A negativa constitui assim um modo de se apropriar de algum material inconsciente sob a forma do repúdio. O conteúdo de uma imagem ou uma idéia, quando abre caminho para a consciência, o faz de forma distorcida. “Isso não é” inclui a forma de julgamento que também quer dizer “isso é algo que eu preferiria reprimir”. Um juízo negativo é um substituto intelectual daquilo que não pode ser dito, colocando o pensamento em confronto com as restrições e com o que não é permitido.

Marcel Duchamp, A fonte