4 de fev. de 2011

Mulheres e perver-cidades



“Se me disserem que é absurdo falar assim de quem nunca existiu, respondo que também não tenho provas de que Lisboa tenha alguma vez existido, ou qualquer coisa onde quer que seja.”

Fernando Pessoa


Um modo histórico de ambiguidade originária, ligada ao excepcional e intenso horror do incesto, resulta na formação de um traço peculiar em todas as formas de organização social: a presença do tabu, associada à possibilidade de transgressão. Um desconcerto irremediável na sexualidade humana se funda pela proibição. A estruturação do mito edipiano, a partir de Freud, traça o roteiro da triangulação erótica - pai, mãe e filho - e suas consequências psíquicas: a castração como punição pelo incesto, o assassinato do pai e o pacto da lei primordial com efeitos imediatos no processo civilizatório. O Édipo se inscreve na lógica das relações e seus arranjos proibitivos.

Dois filmes, Dogville e Narradores de Javé nos oferecem uma disposição acerca dos pactos sociais e suas respectivas leis morais. Os efeitos de exclusão e a necessidade premente da aplicação de métodos punitivos são elementos reflexivos que se oferecem, nas duas ficções, com marcas de funcionalidade no campo das exceções. Graça, na cidade de Dogville, é uma mulher de aparência nobre cercada por miseráveis; Antônio Biá, em Javé, um homem letrado numa cidade de analfabetos. Ambos estão submetidos à um modo de pertencimento localizado na margem da lei, culminando em um estado de exceção plenamente franqueado.

Entre semelhanças e distinções - a começar pela sexual - verificamos efeitos discursivos presentes nos dois personagens, transparecendo a lógica do Édipo nas duas ficções. A presença do falo, como um dilema epistemológico, cria o impasse na teoria, que se dilui diante da tentativa de positivização teórica. O contraste anatômico, no entanto, nos diz Freud, marca a dissolução do complexo de Édipo como possibilidade de execução da castração de um lado e sua simples ameaça do outro. Os efeitos deste impasse lançam suspeitas acerca da diferença entre o nível daquilo que é eticamente normal nos dois modos de apresentação.

“Enquanto nos meninos o complexo de Édipo é destruído pelo complexo de castração, nas meninas ele se faz possível e é introduzido através do complexo de Édipo. (...) corresponde à diferença entre uma castração que foi executada e outra que foi simplesmente ameaçada. (...) Nas meninas está faltando o motivo para a demolição do complexo de Édipo”.(1)

Na trama, os personagens são apresentados de forma distinta. Graça, a personagem feminina, é recebida em uma cidade como uma estranha fugitiva sob ameaça de perseguição, nada sendo dito sobre o seu passado ou suas intenções. Biá, do outro lado da tela, tem sua entrada em cena marcada pela devastação imediata do passado, evidenciando os motivos de sua exclusão. Funcionário dos correios de uma cidade de analfabetos, ele garantia a permanência no emprego escrevendo cartas de conteúdos obscenos, endereçada a outras cidades, colocando em risco a integridade moral dos habitantes. A descoberta do ato resulta na sua expulsão e no ódio abertamente endereçado.

Os critérios de inclusão, nos dois casos, também sofrem distinções. Graça, por razões humanitárias, é acolhida e acobertada por um grupo que exercita, com este episódio, sua filosofia acerca das relações. Um saber estabelecido de forma racional conforma as leis de permanência e aceitação, constantemente testadas e aprovadas pelo grupo. Biá, por outro lado, é restituído ao convívio de modo explicitamente objetivado pela troca de interesses, definidora das regras de aceitação.

As condições de permanência dependem das ações que, quando não executadas, resultam em punições. Os atos punitivos revelam, nos dois casos, a violência contida na subjugação do excluído, no lugar da sua exterminação. Os dois grupos contam com a oculta sede de vingança que a punição é capaz de produzir, sacrificando, nesta troca, parte da sua segurança em favor da ordem estabelecida.

A punição, que se dá pela restituição sob a forma de trabalho, marca uma nova distinção. No primeiro filme ela se apresenta de forma velada, sendo posta abertamente no segundo. Enquanto Graça é incitada a agir espontaneamente, a Biá é imposta tarefa específica, com tempo pré-estabelecido de duração. A aparente recusa inicial aos préstimos de Graça é substituída por um número inesgotável de tarefas, que fogem ao controle e à sua capacidade de execução em tempo hábil.

Graça se submete à lógica de um pacto legal que não conhece limites, ocupando a posição irretocável de cumpridora da lei. O aspecto legal esbarra na fonte agressiva de prazer que escapa à qualquer modo de compreensão, como em um determinado episódio da trama, quando uma criança pede para ser espancada, expondo cinicamente a fantasia de prazer contida na agressividade e seus contornos sociais. A “coisa sexual” reincide na sequência histórica, pelo apelo à servidão do corpo feminino, que passa a ser utilizado de modo vil e repugnante.

A questão da diferença sexual, tomando o filme como fundo aonde se refletem as marcas identitárias, se estabelece pelo tratamento dado à lógica da fantasia. Nas meninas, nos diz Freud, a fantasia masoquista inconsciente representa a atitude edipiana normal, enquanto nos meninos o amor ao pai prevalece. A constituição bissexual toma o processo de repressão como uma escolha possível entre um dos modos de apresentação da sexualidade, direcionando sempre a fantasia de espancamento para a atitude feminina de sujeição.

“Tanto no caso de meninos como de meninas, a fantasia de espancamento corresponde à uma atitude feminina – isto é, uma atitude na qual o indivíduo se demora na ‘linha feminina’ – e ambos os sexos apressam-se em liberar dessa atitude, reprimindo a fantasia”. (2)

O exercício da lei em Dogville, instalado no campo da positividade, toca no ponto da fantasia que é desvelada, reservando destinos trágicos para a organização social. Regida sob a lógica do direito positivo, a transgressão se alimenta pela execução das regras, sem espaço de contestação. As proibições morais e as punições, como consequência, lançam luz sob o “imperativo categórico” do grupo. O cumprimento estrito da lei culmina na insuficiência da lógica frente ao exercício do poder, representado sob a forma de violência pura. A máxima da legalidade conduz ao ‘olho por olho, dente por dente’, como esfera perigosa de delimitação das fronteiras nas ações humanas.

O véu que encobre este terreno incerto da ordem jurídica, em Dogville, resulta no estabelecimento de uma guerra civil legal, que se instala pela via do totalitarismo. Repete os antigos modelos hitlerianos, que elimina categorias inteiras da população, não integradas ao sistema político. A segurança da comunidade é vencida pelo extermínio, como desfecho daquilo que a linguagem é capaz de produzir no campo da razão cínica.

O significado ‘cientificamente’ pensado implica numa relação com a metafísica e com o obscurantismo que ela consolida, pela visada da prevenção dos acontecimentos a partir do sentido. Em Narradores de Javé, ao contrário, a linguagem ganha força aonde o sujeito é marcado pela divisão. Os tropeços gerados pela linguagem estabelecem, neste lugar, a dialética do desejo na subversão do sujeito, não como perdido, mas como dividido em sua ação. Biá resiste à execução da sua parte no pacto, trazendo à tona o ridículo de uma operação legal.

O caráter científico, apontado na primeira trama como possibilidade reflexiva, é ironicamente descaracterizado na segunda, pela via da comicidade. A feiúra de Biá, unida à bizarrice dos seus atos, nos oferece um nítido contraste com a beleza de Graça e seus gestos esteticamente ajuizados. O chiste, que permite o contraste entre as idéias e as palavras, estabelece, na trama de Javé, a possibilidade de relação entre o sentido e a falta, entre a estética e a aberração.

Enquanto o empuxo à agressividade é evidenciado em Dogville, em Javé ele é detido pelos poderes dialéticos do personagem. É sob a máscara da piada que a frouxidão dos dogmas morais se vê ameaçada, como uma séria advertência ao signo em sua posição estática. O chiste aponta para o problema da ambiguidade, cuidadosamente evitado pelo pensamento sério, operando como rebelião contra a compulsão da lógica e da realidade.

Frente à insuficiência de registros localizamos, em Javé, sujeitos prontos a substituir a hostilidade brutal dos acontecimentos pela inventiva verbal, amparados unicamente na lógica da rememoração. A narrativa ganha status de poder na construção do mito e no resgate dos laços históricos, ameaçados de extinção pelo processo de barbárie e desmoralização da experiência.

O apelo à fidedignidade da escrita se apropria no recurso da memória para preenchimento daquilo que falta. A informação plausível, correspondendo à realidade dos fatos, esbarra nos interesses narsísicos que mancham os dados da realidade, com imprecisões mescladas de múltiplas heroicidades. Entre o mito e a verdade, uma trôpega marca de existência constrói um tempo mítido fundante, como forma de resistência à  morte que se impõe aos moradores, sob a forma de catástrofe.

O contraste dos dois filmes se apresenta na sua relação com a lei e as tentativas de fuga que ela oferece. Graça encontra no discurso do mestre a justificativa e apoio para a conduta ideal, transformando sua fuga em um ato racional. A tentativa frustrada revela a traição como elemento contido na trama, enquanto a lógica dos princípios a conduz novamente ao ponto inicial, desta vez literalmente acorrentada.

Biá age por sua própria conta e risco. Devolve o livro em branco com um bilhete anunciando a sua fuga, sendo, do mesmo modo que Graça, recapturado pelo grupo e posto em frente ao modo de inquisição. As correntes que o prendiam ao núcleo de suas ações são por ele arrebentadas, ao denunciar a insuficiência da lógica que tentam lhe imputar sob pressão. Ele se faz reinserido no humano pela via do desprezo, ao afirmar que não existe saída no campo da lógica pura. Isso sim, diz ele, é científico.

O passado de Graça enfim vem à tona, revelando o poder de destruição nele omitido. Os gangsteres que a perseguem e a quem ela é entregue pelo grupo, eram seus aliados da ‘justiça com as próprias mãos’. A ela agora pertence o poder de decisão, argumentando acerca do cumprimento da lei, mascarada de generosidade e isenta de claudicação. Sua arrogância perdoa no outro aquilo que não perdoaria em si mesmo, lhe diz seu pai, aquele que quer fazer dela a herdeira das armas e do poder de destruição daquela cidade. O destino dos habitantes está em suas mãos e ela executa um a um, com a frieza de quem ‘mostra os dentes da irracionalidade’ com a vestimenta da razão.

Javé também não sobrevive ao choque das águas, mas o povo sim. Biá agora torna-se mais um dos desabrigados, carregando debaixo do braço o livro com as páginas em branco. Abraçado à ele caminha em direção às águas que inundam a cidade até o topo da catedral e chora. Em seguida abre o livro e começa a escrever a história de Javé, não pesando mais sobre seus ombros nenhuma lei ou obrigação, mas tão somente o desejo em seu mais duro aguilhão.

A escrita, quando dela ninguém mais cobra valor de documento, incorpora a relação amoral contida no sentido das palavras, reivindicando seu lugar de existência. A obra de arte, que só acessoriamente serve como acervo, posiciona a escrita no intervalo entre o mais além e a insuficiência. A letra, como ajuntamento do que está disperso, se oferece como provocadora de desejos sumersos e recolhimento de restos inúteis, cujo sentido persiste em intensão.

A cidade de Javé tinha sua territoriedade demarcada pela lenda cantada e não documentada, incorporando na escrita o simbólico do corpo que, não importa se vivo ou morto, exige sua inscrição. Dogville, ao contrário, sofre de inscrições rígidas, estranhas marcas espalhadas pelo chão que delimitam concretamente os espaços de circulação do pensamento. As paredes transparentes aos olhos do espectador, em contrapartida, exigem a decifração contida na cegueira dos personagens, obtusos frente à falta de opacidade do significante.

Os efeitos da relação com o significante se presentificam nas duas películas pela impossibilidade de manutenção do discurso científico, tamponador da falta em sua dimensão racional. Pela via do feminino, o intoletável se reduz ao latido de um cão e sua trágica ausência sem índices. Assim Dogville desaparece sem deixar rastros, enquanto em Javé, um homem reduzido ao significante escreve o que não é mais pra ser lido, dando continuidade ao seu processo de inclusão.

Voltemos ao começo do filme: uma roda de homens reunida, tempos depois, houve a narrativa da história de Javé, enquanto em um canto escondido uma mulher – a única em cena – desobedece, com o livro na mão. Depois que ela aprendeu a ler ficou assim, reclama o filho pela falta de atenção. A não-existência da mulher como parte da natureza das coisas, como forma radical de exclusão proposta por Lacan, é o que permite a subversão da lógica no lugar do aprisionamento ao mito da existência sem contradição. A relação significante, que garante a diferença como noção, dá consistência ao mito e objetiva a falta enquanto suporte da existência. Algo se impõe como indecifrável: as cidades e as mulheres. Sobre elas escrevemos.


1. FREUD, Sigmund. (1925) "Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos." Volume XIX, Obras Completas, Edição Standart Brasileira. Rio, Imago, 1976.

2. FREUD, Sigmund. (1919) "Uma criança é espancada - uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais." Volume XVII, Obras Completas, Edição Standart Brasileira. Rio, Imago, 1976.

* Artigo publicado na Revista Mensagem na Garrafa, No. 3 em Junho de 2004, com pequenas alterações.