30 de jul. de 2010

O estranho




Eu estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco
Já eram horas de dormir de novo!

Mario Quintana

São as lacunas da consciência que nos permitem pensar a existência de um outro campo, cujo jogo linguístico duvidoso e cheio de tropeços revela um sujeito que não sabe o que diz enquanto fala. E que só saberá depois, talvez por alguns instantes. Idéias que se assomam à mente, vindas não se sabe de onde, produzem estranhas articulações e impedem a reivindicação de uma consciência ininterrupta, ativa e dominante.

Quando algo parece estranho e impossível de lidar, atribuímos ao outro a origem desse estranho pertencimento. Interpretamos nele o ato recusado em nossa consciência, enquanto nos distanciamos de nós mesmos sem nos darmos conta. Algum impedimento de obtenção de um conhecimento real sobre si, no ato da fala, faz com que o discurso molde a realidade e divida o sujeito entre o que diz e quem diz, a todo instante.

Todo ato psíquico passa por uma espécie de teste de censura, exigindo um novo registro, situado em um outro campo. A idéia pode avançar de um registro ao outro sem perder a localização em ambos, sendo o afeto o que determina as possibilidades de conexão. Na repressão, uma ruptura entre o afeto e a idéia à qual o objeto pertence, faz com que ele sofra vicissitudes isoladas, irrompendo sob a forma de novas e enigmáticas representações.

Os aspectos inconscientes se tornam conhecidos por meio das suas formações, em especial nos sonhos e no sintoma. De forma altamente organizada e livre de contradição, a fantasia permanece reprimida ao mesmo tempo em que promove substituições. As distorções que as formações inconscientes fabricam não se baseiam na semelhança das coisas denotadas, mas na uniformidade das palavras empregadas. A catexia da apresentação da palavra não faz parte da repressão, abrindo o caminho da fala enquanto suporte para a decifração.

Zilio, Carlos
Lute , 1967 - 1998
serigrafia sobre filme plástico e resina plástica acondicionados em marmita de alumínio [apropriação]
5,8 x 10,5 x 17,5 cm
Coleção Museu de Arte Moderna de São Paulo (SP)
Reprodução Fotográfica Romulo Fialdini

29 de jul. de 2010

Construções





“Há uma série de fenômenos de grande importância que não podem ser registrados (ou compreendidos) através de documentos quantitativos, mas que devem ser observados em sua plena realidade“

Bronislaw Malinowski


De que maneira pode-se assegurar de uma intervenção correta, capaz de produzir êxito ao tratamento analítico? A esta pergunta Freud responde em “Construções em análise” (Obras completas, Volume XXIII), aproximando seu trabalho de investigação ao de escavação, feito pelo arqueologista. Como que a procura de um objeto perdido entre os escombros, a tarefa de ambos é a de reconstituir, por meio de combinações e suplementações, os restos que sobreviveram ou deixaram vestígios.

A diferença entre um método e outro, que auxilia na busca de respostas para a pergunta acima, é que a reconstrução em análise, diferente da arqueologia, não é um fim em si mesmo, mas apenas o início. Os aspectos essenciais do material que se está à procura se entrelaçam aos meandros de uma situação falsamente construída - a situação analítica - cuja evolução determina o modo de retorno das conexões e a reconstrução do material reprimido.

Se a determinação da idade dos achados é uma questão delicada que envolve as duas pesquisas, uma segunda diferença apontada por Freud diz respeito ao material, que em análise se mantém vivo, misturando conexões e fragmentos de lembranças com comportamentos atuais, embaraçados ao trabalho analítico. Se ambos – analista e arqueólogo - possuem igual direito de reconstruir esse material por meio de suplementações e combinações, o analista conta com a reação do paciente ao complemento oferecido, que é sempre ambígua.

O analista não aceita o “sim” pelo seu valor nominal, nem compreende um “não” como a impossibilidade de intervir. O material oferecido não se difere em nada de um delírio, importando tão somente o que pode ser fisgado da verdade, na falsidade da relação estabelecida. Confirmações indiretas, reações inesperadas e associações imprevistas indicam que as convicções dependem muito menos da existência de algum material invicto, pronto a ser revelado em um momento específico, do que da dinâmica que em torno do material de análise se cria.


Vista da Baía, Juan Gris, 1912,

28 de jul. de 2010

Moisés, uma recordação



"Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira."

Ferreira Gullar


Como na história individual, também faz parte da história de um povo o preenchimento das lacunas, com convicções contaminadas de desejo e aspectos repudiados pela natureza do seu conteúdo. O passado exerce uma enigmática atração sobre a imaginação, tal qual o encantamento da infância que se mantém na memória como uma época de ininterrupta felicidade. Sob o efeito de poderosas impressões primitivas, que escapam ao tratamento normal, o conteúdo das lembranças é invariavelmente, recheado de deformações.

Se uma descrição histórica é aceita como digna de crédito, cada parte que retorna afirma-se com força peculiar, exercendo uma influência poderosa sobre o resto do conteúdo em ação. O cerne da verdade se espalha para os erros que a envolvem, sendo impossível distinguir a presença de uma fantasia na realidade esquecida, ou evitar os efeitos que seu retorno provoca.

Freud, em Moisés e o Monoteísmo (1939 [1934-38] – Obras Completas, Volume XXIII) lança luz sobre a copiosa fenomenologia das religiões em paralelo à vida psíquica, para problematizar a forma pela qual a tradição opera na vida de um povo, tal qual do sujeito sempre em questão. Tomando o retorno dos traços mnêmicos do passado como base para compreensão da vida psíquica em seus desvios, ele se pergunta sobre a importância de uma tradição, sobre a forma com que ela se mantém, e sobre os conflitos que exigem decifração.

Ao se declarar incapaz de apagar os traços da história da origem da própria obra, que “o atormentou como um fantasma insepulto”, Freud publica um dos últimos e mais valiosos artigos, sob a ameaça de perseguição e como um alerta para os riscos da repetição. Como o intelecto se desvia sem qualquer aviso ao encontro das ilusões carregadas de desejo, a verdade de obra psicanalítica deverá ser mantida, juntamente com o seu autor, na perspectiva de uma ficção.

27 de jul. de 2010

O chiste



"... e que você descubra que rir é bom mas que rir de tudo é desespero."

Vitor Hugo


Uma das afirmações vitoriosas do ego e seu triunfo sobre o sofrimento está na capacidade de transformar o drama em riso. Não resignado, mas rebelde, o riso se afirma contra a crueldade das circunstâncias reais, produzindo uma economia de gastos em relação ao sofrimento psíquico.

O chiste, liberado das usuais regras de regulação, alcança na liberdade estética o juízo lúdico, não requerendo do objeto nenhuma relação de garantia. Sem precedentes e agindo a revelia, o significado engana por instantes, dizendo tudo o que tem a dizer sem se preocupar com o sentido. Não reside no pensamento ordenado, mas na possibilidade de ser efeito de uma expressão livre.

Condensação e deslocamento, tal como nos sonhos, são mecanismos verificáveis na execução de um chiste. O uso múltiplo de uma mesma palavra ou a evocação de um significado ao outro, por similaridade, ou ainda o duplo sentido combinando com o deslocamento, são truques que fazem do chiste uma surpresa advinda de um ato repleto de improvisos.

A brevidade com que o chiste é praticado e a sutileza empregada nos deslocamentos é o que garante sua qualidade e eficácia. Seu conteúdo sexual cria disfarces contra a agressividade, e sua prática manifesta uma rebelião profunda e duradoura contra a compulsão da lógica e da realidade.

Diferente dos sonhos contudo, Freud destaca em seu artigo de 1905 (Os chistes e sua relação com o inconsciente - Obras completas – Volume VIII), o chiste tem como precedente a presença de um outro, sem o qual ele não alcança seus objetivos. Para sonhar não necessitamos de companhia, mas para rir é preciso a produção do laço social como fonte de prazer e garantia.

Tela de Giuseppe Arcimboldo - Legumes em uma tijela ou jardineiro (1572)

26 de jul. de 2010

Fetiche


"Não estou doente, estou partida. Mas me sinto feliz por continuar viva enquanto puder pintar."

Frida Kahlo

Recusar fragmentos do mundo externo e fantasiar não é privilégio da loucura, mas tarefa de um ego constantemente ameaçado por aspectos insuportáveis da realidade. Lançar mão de objetos de forma seletiva e em torno deles construir uma noção de unidade exige do ego a operação da recusa de outros tantos, cuja percepção faltante propositalmente lhe escapa. Mas que continuarão agindo à revelia desta ordem.

Alguns objetos tornam-se privilegiados neste trabalho de distinção e seleção, adquirindo especial destaque. Sua função é preservar a extinção do objeto perdido de forma traumática, servindo para recobrir a percepção da falta, dando a ilusão de preenchimento como uma impressão visual que incide sob o ponto cego da retina frente à imagem. O horror da falta ergue um monumento a esta imagem, como um substituto que triunfa e protege contra as ameaças.

A esse objeto destacado Freud vai dar o nome de “fetiche” e sobre ele estabelece a noção de uma falta original, cujo trauma visual é irreparável. A instituição deste objeto ocorre pela interrupção da memória frente ao trauma e o desvio do olhar para o ponto mais próximo. Pés, sapatos e peças de roupa íntima são exemplos de objetos que cristalizam no olhar frente ao instante em que a mulher pode ser vista em sua genitália, como acabada. A satisfação que estes objetos produzem é proporcional à dificuldade de lidar com o que eles encobrem.

O susto à vida que o órgão genital feminino produz serve de metáfora para o restante dos disfarces que produzimos vida afora. O limite entre a loucura e a sanidade opera no registro da falta e suas formas de representação, com os diferentes modos de contorno do feminino enquanto ausência de uma marca. O ajuste que se exige da realidade depende de uma atitude fetichista frente à castração, funcionando ao mesmo tempo como aceitação e recusa do irremediável.

23 de jul. de 2010

Uma rosa meditativa



Não te aflijas com a pétala que voa, também é ser deixar de ser assim..."
Cecília Meireles em "O motivo da rosa"

O sonho é a base sob a qual as inscrições significantes se ocultam e se revelam, numa passagem privilegiada para o inconsciente como formação. Como um campo aonde o sentido se prende de forma não linear a diferentes conexões, elementos da engrenagem estabelecem novas relações. A massa de pensamentos submetida à pressão, de maneira retorcida, fragmentada e rejuntada, funda, com a psicanálise, uma estrutura lógica desde sempre prenhe de interpretação.

Erramos, nos ensina Freud, se queremos compreendê-lo pelo valor de imagem, usando seu simbolismo de forma isolada, como elemento específico de decifração. As imagens dos sonhos, para a psicanálise, adquirem valor de signos engendrados ao processo e não de significações dadas de antemão. A transcrição dos pensamentos oníricos, formatada pelo inconsciente, como uma tela de pintura, se faz por composição de metáforas conjuntas, cuja aparência e reconhecimento depende do deciframento das distorções.

O trabalho significante, em seus mecanismos de junção onírica, não se resumem a um conjunto anárquico, alheio e misterioso, entregue aos deuses ou às formas mitológicas de apreensão. São processos possíveis de serem sistematizados através das leis de deslocamento e condensação. Pela condensação, os elementos se fundem a partir de uma representação única e convergente, enquanto o deslocamento inverte os valores e traveste o sentido, produzindo a equivocação.

O sonho tem a estrutura de um enigma a ser soletrado a partir das ligações. A letra – fundada na existência do traço e sua repetição - decide o destino da representação. Abrindo a possibilidade do sujeito, frente ao objeto, estruturar uma representação que não coincide com o real da coisa, mas como um acidente que desnaturaliza esta relação. Sujeito e linguagem são campos abertos, cuja incerteza fundamental de signos enganosos permite estranhas e libertárias formas de criação.

Pintura: Rose Meditative de Salvador Dali

22 de jul. de 2010

Um borrão




São três as formas de sofrimento humano sobre os quais nenhum esforço é suficiente para garantir proteção: a decadência do próprio corpo – cujo adiamento inevitável nos coloca frente a uma estranha noção de tempo – as intempéries do mundo externo - com suas impiedosas formas de destruição – e o mais penoso de todos, a relação com o outro – assunto que se tornou alvo de nossa especial atenção.

Todo sofrimento é uma sensação e a busca de situações prazerosas funciona como um escudo de proteção. O caminho das drogas e a busca por substâncias entorpecedoras propiciam refúgio interno e melhores condições de sensibilidade, produzindo um grau de independência do mundo externo e funcionando como amortecedor das preocupações. Em certas condições, contudo, podem representar perigo e dano, além de desperdício de cotas de energia que poderiam ser empregadas em melhores condições.

A fonte de trabalho psíquico e intelectual – como o artista que cria ou o cientista que descobre verdades – são reconhecidas socialmente como satisfações mais refinadas. Mesmo assim não cria uma armadura impenetrável contra as investidas do destino, muito menos nos torna completamente independentes da realidade. A arte, que tantas vezes nos serve como suave narcose, não é suficiente para nos fazer esquecer as aflições e a pressão das necessidades diárias.

O amor sexual, colocado acima de todas as sensações, se apresenta nas canções românticas como resposta ideal para o sofrimento e a solidão. Sexo e civilização, contudo, produzem uma estranha combinação, aonde o espaço para o terceiro é eliminado em busca de um tipo particular de satisfação. A sensação de desamparo e infelicidade com o rompimento deste tipo de união revela o quão indefeso nos tornamos quando estamos entregues a uma paixão.

As frustrações da vida sexual surgem mescladas de um grau de hostilidade sujeitas à repressão. A aproximação extrema e o distanciamento necessário, exige a busca da distância intermediária, nunca ajustadamente perfeita. Como na metáfora dos porcos-espinhos, proposta por Shopenhauer, aproveitamos o calor do outro pra não morrermos congelados, e nos afastamos vez por outra, para garantir a existência do circuito civilizatório, mesclado por esse borrão.


Escultura de Camile Claudel

21 de jul. de 2010

Uma análise in-terminável




“Todo passo à frente tem somente a metade do tamanho que parece ter a princípio.”

Johann Nestroy (citado por Freud em Análise Terminável e Interminável.)

Análise é um assunto que consome tempo. Os mais fortes argumentos para encurtá-la têm sido usados, numa tentativa de adaptar seu método às urgências do cotidiano. A fixação de um tempo determinado leva-nos ao problema do seu término, sujeito a inúmeras interrogações. O que é uma análise bem sucedida e o que garante a sua finalização?

A análise, como um estado artificial obrigatoriamente construído, não escapa a algumas generalizações. Supondo regras e leis que tragam ordem ao caos, a simplificação do mundo dos fenômenos cria a impossibilidade de se pensar as variações. Desprezando-se o fato de que os processos são incompletos e as alterações parciais. Como os caminhos que trilhamos sempre, repetindo o que é sempre uma variação, sempre caminhando em outra direção.

Despertar um conflito que não se apresenta, com base na idéia de uma profilaxia, é tão despropositado, nos diz Freud, quanto supor sua definitiva interrupção. A produção artificial dos conflitos de transferência, que despertam os que se acham presentes na imaginação, facilita as mediações entre o externo o interno, colocando-os em contradição. Estamos condenados, no entanto, a falsificar nossa percepção interna e apresentar somente uma representação imperfeita e parcial da questão.

Se é na repetição que o analista toma conhecimento de algumas modalidades de reação, ele nem sempre está autorizado a interpretar, sob o risco de estar lidando com defesas arraigadas e desastrosas resistências. O esgotamento da plasticidade e a incapacidade de modificação dão conta de um campo de uma inércia psíquica de extrema fixidez, cujo ritmo e eficácia desconhecemos de antemão.

O analista, como quem aprende a praticar uma arte específica, também está sujeito a tais variações. Sem deixar de se ter em mente que o processo de amor e busca da verdade não admite imposturas ou falsificações, a análise se apresenta como uma profissão impossível. O nível de normalidade psíquica absoluta como ideal de cura, ao revelar o impossível, garante o trabalho como única possibilidade de finalização.

Fotografia que fiz da calçada de Ipanema, numa tarde de outubro...

20 de jul. de 2010

Depois disso...



"Aquilo que a memória amou fica eterno"
Adélia Prado

Memória em Freud não é lembrança, muito menos reminiscência, mas a base sobre a qual se funda o psiquismo. Não como um puro receptáculo de imagens revestidas de palavras, mas como um sistema composto de diferentes séries associativas. Lugar aonde as coisas se organizam não pelas leis da gramática, mas por um tipo de trilhamento particular e específico.

A representação dos objetos, nunca completamente adequada à coisa, vai se construindo peça por peça na relação com a linguagem, a cada dito. O aparelho psíquico é o aparelho de memória, com uma marca de intensidade sobre a qual a impressão produz efeitos imprevistos. Um traço qualquer se destaca da textura, tomado de quantidades e qualidades que facilitam as grades de contato e a busca de sentido.

A repetição dos trilhamentos significantes dá origem à memória e ao psiquismo. Na repetição, que exige a presença do tempo, a diferença aparece associada ao período. O movimento não é sincrônico, ou sempre idêntico ao pretendido, estranhos contrastes e suspeitas semelhanças produzem diacronias, abstrações imprevistas. Estamos frente ao aparelho psíquico, que funciona por deslocamento e condensação, ou como quer Lacan, por metáfora e metonímia.

A noção de temporalidade que o traço determina permite novos arranjos, novas trilhas. A memória não se confunde mais com um simples registro, mas se oferece como uma movimentação de traços reestruturados todos os dias. Que demandam a tradução permanente de um original sob a forma de ficção, servindo de ponto de apoio para o engendramento da realidade psíquica. Novos traços alteram os antigos, exigindo que na prática analítica só o “depois” determine - não de uma vez por todas, mas a cada vez - o que é isso.

Tela "A costureira" de Djanira

19 de jul. de 2010

Ilusão e barbárie




"Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais.(...) Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror"

Walter Benjamim em Sobre o conceito de história

Em torno do trabalho de construção de uma civilização, duas tendências se unem e se constituem como base: a exploração da riqueza e sua distribuição, que inclui o homem como objeto a ser explorado. Quando olhamos para o passado e nos espantamos, ou nutrimos a ilusão de um controle sobre o presente, ou ainda quando nos arriscamos a emitir opiniões sobre o futuro, supomos alguma modificação resultante do trabalho. Alguma coisa nesta organização, no entanto, fracassa.

A exploração da natureza resulta em desastres ambientais, enquanto e a exploração do homem pelo outro cria desigualdades insuportáveis. Acrescentando o aspecto sexual nas relações de troca, a ampliação dos conflitos adquire colorido nas múltiplas e históricas barbáries, com as quais convivemos alarmados. O que há nessas duas tendências – explorar e distribuir - com a qual lidamos de forma sempre problemática?

No Futuro de uma ilusão (Freud, Obras Completas, Volume XXI) encontramos tratamento para a questão levantada. Tomando por base o conflito entre o desejo e a frustração – que tem como conseqüência a proibição - a relação do homem com o a civilização se revela como inviável. Sob o signo da coerção e obediência, sacrifícios e compensações nem sempre correspondem à trocas adequadas, mantendo sob tensão os movimentos de revolta.

Os desejos, ainda que domados, nascem de novo em uma criança, ao ser educada. Dois momentos de apaziguamento do desastre são por Freud apontados: a religião e a arte. Se no primeiro deles, sustentamos o pai – ou Deus - como ideal a ser preservado, no segundo substituímos as renúncias pulsionais por manifestações cujo sentido nos escapa. Sem manter a ilusão de que alguma saída em definitivo seja dada, é na ciência, enquanto campo ideal da psicanálise que, seguindo Freud, as soluções devem ser pensadas.

Cildo Meireles - Zero Dollar - litogravura sobre papel

16 de jul. de 2010

Repetição



"As descobertas são máscaras do mais obscuro real"

Carlos Drummond de Andrade

Alguma coisa retorna, faz apelo e insiste. Presa à cadeia significante essa "alguma coisa" sobrevive nos desvios, se alimentando de forças pulsionais que sustentam a junção. Conjunções de palavras e ações determinam quase sempre os destinos, com seus sucessos e fracassos, cegueiras, recusas, impecilhos. O que se repete é sempre a mesma posição. Na singularidade do signo habita uma intrigante determinação, fruto de um acaso marcado desde sempre, retroativamente significado. Como uma ficção.

Coberto por uma falsa aparência, o circuito simbólico se oferece ao jogo de equivocação.
Um peculiar modo de investigação em torno das leis que regem essa cadeia, recolhe as provas da indestrutibilidade criada pelo inconsciente, resgatando dele o sentido e sua equivocação. Não é de outro lugar que provém os efeitos da repetição, senão da pulsão de morte, essa teia de verdades recalcadas que se apresenta no automatismo à repetição.

A repetição sendo simbólica, não pode mais ser pensada como constituída pelo sujeito, mas como o constituindo. Como um elemento que o governa para além de si mesmo, na radicalidade dos traços e suas determinações. Em que medida é possível escapar dessa entorpecedora teia, ou construir outra com os mesmos fios, que desfaça o imobilismo e aprisionamento das ações?

Pintura de Van Gogh

15 de jul. de 2010

O olhar




Acima de todas as formas de representação, o olhar é o modo mais íntimo pelo qual o sujeito, como em espelho, é reconhecido do lado de fora de si mesmo. É na presença desta aparição imagética que algo se garante como existente, sabendo, no entanto, que as coisas não se passam bem assim.

Esse olhar que nos reconhece, não nos mostra. Há mais alguma coisa, mais além, que não sou e está em mim e instaura uma fratura, uma esquisitice que não se acomoda completamente.

No campo do olhar as coisas são contraditórias: as coisas me olham e eu as vejo. O dar-se a ver gratuito nesta troca de olhares, faz com que o mundo, que nos olha, provoque em nós o sentimento de estranheza. Ao contrário do sonho, aonde estranhamente nos reconhecemos e a ausência do olhar dá lugar à sobredeterminação.

Diante da imagem fragmentada produzida pelo olhar, é preciso lançar mão de uma máscara. Que seja capaz de sustentar o despedaçamento e criar um invólucro garantidor de alguma unidade. Uma pele separada de si mesmo para cobrir a armação de um escudo, ou uma proteção que seja capaz de suportar o jogo da vida e os efeitos da morte dentro de si. Suportando mais ainda o dar e receber do semelhante, na luta escópica em torno de uma existência oscilante.

O olhar busca a completude, em si mesmo e no outro. O apetite diante da imagem que satisfaz une desejo e falta, tornando voraz o que é disjuntivo. O olhar que desfalece diante dos encantos da fascinação é o mesmo que estranha a própria imagem, revelando a presença do duplo em permanente exposição. A máscara serve de anteparo e com ela o sujeito oscila entre o dar-se a ver e a ilusão.

14 de jul. de 2010

Um segredo inestimável




Coberto pelo véu da obscuridade repousa a sombra de um segredo inestimável. São as limitações da sugestão hipnótica que revelam o fator econômico eficaz por trás da barreira do sintoma. O represamento dos afetos não implica no seu desaparecimento, eles sobrevivem e retornam sob a forma de imprevisíveis desvios, sutilmente mascarados. Os resultados de uma análise, por mais brilhantes que sejam, estarão sujeitos à eliminação se este aspecto for, em algum momento, ignorado.

Enquanto as quantidades dinâmicas – pulsão e resistência – lutam em plena luz do dia, o ego recua e impede o afeto de abrir passagem, criando insistentes e imperceptíveis atalhos. A associação livre e sua fala desenfreada substitui a hipnose, permitindo o afrouxamento das amarras e a liberação dos fragmentos de nós, submersos por trás de repetidas palavras. Na aparente banalidade discursiva repousa o afeto deslocável, em cujo nó o analista se suporta, completamente causado.

Admitir o “isso não é comigo”, frente à ilusão do desejo de ser amado, é a causa que inaugura um novo dispositivo em Freud, abrindo espaço para um campo aonde a trama de um afeto poder ser desfeita, para ser novamente resignificada. Ocupar lugar de resto de um desejo não realizado é a arapuca chamada analista, que a repetição morderá na transferência, em seu resto de eficácia. O que ele não pode ignorar - enquanto suposição de uma marca desejável - é o espaço que se ocupa sorrateiramente, suportando desde o início o vazio ao fim da estrada. Disso depende o resultado de uma análise.

Pintura de Tarsila do Amaral

13 de jul. de 2010

Insistência ou desejo?




É preciso insistência para se manter de pé a pergunta que volta e meia retorna: para que serve afinal a psicanálise? Qual é a sua função?

Exaurida a sua força subversiva, contaminada por novos modos de alienação, ela se vê confundida com terapias alternativas, seduzida por estratégias normativas de exorcismo da infelicidade e rendida aos “novos sintomas” da modernidade.

A psicofarmacologia, enquanto isso, investe na classificação de comportamentos e na criação de pílulas da felicidade, que mudam de cor e nome. A organicidade simplista - cuja base cria sujeitos em série, expostos aos mesmos sintomas – retira de cena a palavra, mantendo o sofrimento como fonte de angústia e vergonha.

A análise é árdua e faz sofrer. No entanto, frente ao peso das condutas obrigatórias e das aparências a serem salvas, parece não haver muita escolha. A razão que vacila no interior de si mesma exige uma outra explicação. O escândalo não reside em encontrar uma razão para o comportamento sexual, mas em entender que a negação de uma fantasia pode ser tão mutilante quanto a negação de uma violência real.

A relação social, como o negativo da sexualidade, só o é na medida em que positiviza o homem, levando em conta o componente pulsional como parte de sua constituição. Se um trauma real não é menos mortífeto do que um sofrimento psíquico, a psicanálise existe como um avanço da civilização sobre a barbárie. O homem não se reduz a um compêndio de normas biologizantes, e a psicanálise existe para restaurar nele a liberdade por meio da fala.

12 de jul. de 2010

Pela metade




A inscrição de um pensamento na cultura e sua elevação ao estatuto de obra, na ordem do pensamento, é a forma acumulada com que ele se organiza e se disponibiliza para a troca. Assim, só existe obra, no sentido estrito, se publicada. Furtar-se a este dispositivo é renunciar à sua inscrição, tal como o pensamento externo da loucura. Que uma vez publicada e absorvida passa a ser reconhecida como produto, quase sempre associado à arte. A convocação de um pensamento pela ciência e pela cultura deriva de seus contornos e suas formas de absorção.

O que constitui a psicanálise como uma obra inscrita e absorvida pela cultura é, ainda hoje, uma questão a ser pensada. O esforço de Freud para acomodar suas idéias ao contexto de uma ciência normal, resulta no desvio sob a forma de obra, suspeitando dos limites de um pensamento que oscila entre a loucura e o fracasso. A relação com a verdade, que exige o aparente e necessário recuo, lança para o futuro a decisão entre o delírio de uma teoria para além do que se é capaz de admitir e a verdade na paranóia, com a qual a cultura não é capaz de lidar. (Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de paranóia, Volume XII, Obras Completas).

Verificamos no pensamento de Freud, uma estratégia exemplar. Suas associações, que giram em torno do fracasso, resultam numa renúncia à ciência normal, premiada com jubileus e laboratórios, inscrita no campo fúnebre da cultura. O “bando selvagem” ao qual ele viu seu pensamento se acomodar, sustenta a publicação como excremento e suporte de um pensamento inacabado, que não dispensa a emergência de uma obra. Trata-se, por que não dizer, de uma escrita de pretensões artísticas, com incessantes frases complexas, que não dispensam, no entanto, a urgência da transmissibilidade.

Lacan, por sua vez, praticou o “semidizer”, que implica em certas proposições de saber que só se deixam apreender como digressões, fragmentos poéticos impregnados de prudência e ética. Problematizou a escrita freudiana no tocante à sua relação com a verdade, abolindo dela a pretensão científica, como redutora e detentora do campo das obscuridades. Sustentou a disjunção e manteve a psicanálise como produto de uma cultura que suporta em seu bojo a dinâmica de um saber fragmentado. Absorvida a cada nova transmissão, somente pela metade.

Pintura de Salvador Dali

9 de jul. de 2010

A mulher fal(h)a




A mulher Freud entregou aos poetas, não há como explicá-la. Os poetas, por sua vez, versaram sobre essa existência misteriosa, chamando de rasgo de beleza o vazio produzido pela indefinição de uma marca. Lacan foi mais longe, afirmou que a mulher não existe, senão como uma impossibilidade. O que há com a mulher, este ponto de fixação sobre o qual nenhum saber se sabe?

A saída do Édipo é o eixo de inflexão sobre o qual a questão se abre. O mito, como uma ficção definidora de lugares de repetição, aponta para a impossibilidade de uma simetria entre os pares, abrindo uma fresta para a interrogação que virá mais tarde: o homem escolhe o pênis em troca do objeto amado, mas o que tem a mulher a perder afinal, com essa retirada?

Enquanto no menino o objeto amado permanece sendo a mulher/mãe, a troca do objeto genital para o pai e a renúncia que se segue a esta escolha, na menina, não se explica por simples dedução das partes. Na esfera da ligação inaugural com a mãe, em ambos os sexos, tudo é sucumbido a uma repressão inexorável, obscurecendo a gama de motivos que leva ao afastamento posterior, ou à substituição pela figura do pai como objeto desejado.

A oscilação entre a passividade e a atividade revela a intensidade com que o masculino e o feminino incidirão sobre a sexualidade, reduzindo a anatomia ao destino no lugar de pura fonte de causalidade. Se a passividade sucumbe ao risco de devoramento materno, a urgência da atividade indica um modo de estar no mundo inevitável, tanto para o homem quanto para a mulher.

Um meio de suavizar essa contradição reside no abandono das leis biológicas, interessando tão somente o movimento e a acidentalidade. O caminho para descoberta da feminilidade é o de se estar lá, ainda que não-toda, mas à toda, em toda parte. A mulher não existe, mas fala, nos ensinando que há algo a mais, para além do falo.

8 de jul. de 2010

Sexualidade e civilização




Não se pode escapar das restrições impostas ao processo civilizatório, cujas regras se distinguem pelos diferentes modos de organização. Em todas elas, no entanto, a questão sexual assume lugar de destaque, produzindo antagonismos entre a constituição individual dos sujeitos e as exigências impostas pela sociedade.

Nas sociedades modernas a vida urbana, sofisticada e intranqüila, estabelece a busca pela eficiência, que se une à ânsia pelos prazeres e ao encorajamento da sensualidade, transformando o cotidiano em um estado de permanente tensão. A pressa e agitação fazem do prazer uma obrigação, aumentando nos sujeitos o grau de insatisfação. Paralelamente, o aumento do controle se expande de forma avassaladora, impondo novas formas de satisfação.

A tarefa de dominar as pulsões sexuais, que exige um dispêndio enorme de força psíquica, cria uma maior disposição para as neuroses, enquanto a atividade sexual regulada pela civilização estabelece as regras pelas quais os sujeitos são enquadrados em um mesmo padrão de comportamento, reconhecido como ‘normal’. Ao se destacar o aspecto sexual como protótipo para as demais reações diante a vida, o que se busca é o abandono da naturalização patologizante imposta pelas organizações.

Sem deixar de considerar que o deslocamento do objetivo sexual para a realização de atividades sublimatórias - tais como a arte, a política, o esporte - contribui para o avanço cultural, é preciso ter claro que ela não garante a eliminação do desejo sexual. E que as regras para a sua contensão obrigatoriamente falham. O reconhecimento de tais falhas, nos ensina a psicanálise, também contribue para a civilização.

Pintura de Picasso

7 de jul. de 2010

Uma outra história













A terceira ferida narcísica da humanidade retroage à centralidade do universo em Galileu e da própria criação, em Darwin. O homem, também não é senhor em sua própria casa e seu narcisismo está, a partir de Freud, definitivamente ameaçado.

A tentativa de distinção entre o consciente e o inconsciente, sem os préstimos da biologia, dispensa qualquer produção de saber completo e acabado. A consciência também é transitória e sua distinção já não depende da existência de um ego sintônico e acabado, mas um ego que circula livremente nos dois pólos. Possui gradações, como a luz e a escuridão, a vida e a morte. O ego flutua em um mar de memórias esparsas.

Se o material inconsciente é desconhecido, a consciência se utiliza de representações verbais. Mas não dispensa os traços, resíduos mnêmicos da amnésia infantil, recheado de imagens que aparecem também nos sonhos, delírios e alucinações, dependendo do estado. Tudo o que é reprimido é inconsciente, mas nem tudo o que é inconsciente é reprimido, em especial as imagens.

O ego não é coerente, ele mal e porcamente controla o que se encontra dividido entre a projeção de uma superfície – o corpo como imagem – e os restos oriundos de uma pré-história. Cuja ficção constrói objetos e com eles se identifica, impregnando-os de afetos, que tingem, borram e mancham a palavra. Fazendo com que ela seja sempre renovada.

O ego sofre com sua consistência mutável, descentralizada e atemporal, e passa boa parte da vida tentando provar pra si mesmo que ser o centro é a melhor história. Transformar o sofrimento neurótico em sofrimento comum talvez seja aprender a abrir mão do centro em favor da liberdade. Que modifica a história e faz dela uma outra, completamente nova.

6 de jul. de 2010

O que é que eu faço com ISSO?


- Agora eu já sei de onde vem o meu problema, mas e daí? O que eu faço com isso?

O paciente desafia a transferência com o analista, enquanto interroga o valor de uma recordação vinculada a fatos recentes, aonde a repetição se manifesta na palavra encarnada.

A verdade desde sempre sabida, seja ela fato ou mito, pertence agora um nova tecitura, atrelada ao testemunho do analista, que exige do material exposto a elaboração que lhe é devida.

Recordar, identificar o material reprimido era o método catártico de Breuer, abandonado por Freud frente à resistência que intimida. Se a resistência é sempre do analista, intimidar-se não pode fazer parte do processo, é preciso entender a estrada de mão dupla na qual caminha o método analítico.

Apropriar-se do material exige uma segunda etapa, e a transferência (lugar aonde a repetição se presentifica) é o outro lado da via, que assinala o trânsito e exige o enquadramento da pista. Em Recordar, repetir e elaborar (Volume XII das Obras Completas) Freud nos fala da transição entre a vida real e a fantasia, e nos ensina o valor do tempo para que o movimento aconteça e a análise caminhe.

O que fazer com o material descoberto para quem tem pressa e exige uma saída? Sustentar a transferência, a Freud e à clínica.

Terça-feira, 06 de julho de 2010.

5 de jul. de 2010

A cura do queijo




O recalque é um conceito que não poderia ser pensado antes da idéia freudiana de inconsciente, cujo conteúdo é o produto desta descoberta. São os efeitos desta operação psíquica que nos fazem tatear ainda hoje no escuro, em busca do material oferecido de través à investigação analítica.

A verdadeira fonte da repressão deriva da força pulsional, associada a algum desenvolvimento desinibido da fantasia, represado em sua satisfação. Os derivados do reprimido não desaparecem, sofrem distorções, modificando as condições pelas quais o prazer se realiza.

O destino de uma idéia é decidido pela sua força (quantidade) e pelo afeto (qualidade) a ela atribuído, cuja ligação não corresponde a nenhuma lógica previsível. O conteúdo ideacional pode ser um sintoma, geralmente coberto de disfarces e com pouca possibilidade associativa. Prato cheio, no entanto, para as terapias breves, cuja remoção não leva em consideração a fonte e os desvios.

A angustia, nos diz Lacan, é o único afeto que não engana. A ele nenhuma idéia se prende, nenhum sintoma se realiza. Senão sob a forma do vazio, sob a forma do objeto para sempre perdido, aquele que nunca existiu, mas continua fazendo uma falta incrível. Quando o paciente nos procura com algum sofrimento psíquico, propomos o desfazer das teias dramáticas desse inconsciente, detentor do material recalcado que tanto lhe aflige.

Um sujeito partido, às voltas com a questão da morte e o sofrimento causado pelos encontros mal sucedidos exige de nós a cura, conselho, milagre, magia. Retirar do inconsciente toda a carga metafísica, dando a ele o estatuto de materialidade, lentamente percebida nas linhas de um discurso repetido, não é prometer a cura. A cura do queijo talvez, um dia.

Rio, 05 de Julho de 2010.