24 de ago. de 2010

QUADRILHA


João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade


Compreendida a partir das relações sociais e tendo como recorte cultural o casamento, a família sofre determinações, cujo condicionamento reproduz a realidade do ambiente sob a forma de um complexo. A realidade social exige a revisão permanente deste complexo, permitindo situar na história da família os diferentes tipos de neurose que acompanham a sua constituição. Seja qual for o futuro da organização familiar, o aparecimento da psicanálise será indissociável da sua formação.

A ordem humana subverte a fixidez dos modelos culturais, de onde surgem formas familiares permanentemente sujeitas à variação. Em todas elas a existência da sexualidade e a tensão produzida por diferentes etapas do recalcamento, dão forma à fantasia e à lógica que se funda na proibição. A partir do tabu do incesto como uma idéia universal, Freud funda no Complexo de Édipo o eixo sobre o qual a sexualidade se constitui e se projeta na realidade, confrontando o psiquismo humano com o drama da castração.

O complexo reproduz a realidade em sua forma e importância, mantendo a determinação cultural com a pregnância de uma imposição. Seu conteúdo - fornecido em diferentes etapas da vida - e sua forma de organização afetiva – que colocam em cena a agressividade, o ciúme, a competitividade e as identificações sucessivas – promove os elementos de choque com o real. A análise compreende que quanto mais diversificadas forem as realidades integradas na experiência familiar, mais formador será para a razão a redução dos elementos e suas fixações.

A integração dos sujeitos, que permite a passagem do complexo para social, é um processo dialético cuja lógica ultrapassa qualquer idéia de predisposição. Se o estudo destas formas refere-se à história individual e da sociedade como parte dela, o movimento subversivo e crítico em que ele se realiza encontram seu germe mais ativo nas diferenças de ordenação. É pelo ideal como pura projeção, pela evidência da relação sexual e pela angustia que brota das figuras mais profundas do destino humano, que a família como ficção permite ainda hoje a junção de uma experiência sob a forma do complexo, dando lugar ao sujeito como permanente questão.

Fotografia - Um retrato de familia