
Coberto pelo véu da obscuridade repousa a sombra de um segredo inestimável. São as limitações da sugestão hipnótica que revelam o fator econômico eficaz por trás da barreira do sintoma. O represamento dos afetos não implica no seu desaparecimento, eles sobrevivem e retornam sob a forma de imprevisíveis desvios, sutilmente mascarados. Os resultados de uma análise, por mais brilhantes que sejam, estarão sujeitos à eliminação se este aspecto for, em algum momento, ignorado.
Enquanto as quantidades dinâmicas – pulsão e resistência – lutam em plena luz do dia, o ego recua e impede o afeto de abrir passagem, criando insistentes e imperceptíveis atalhos. A associação livre e sua fala desenfreada substitui a hipnose, permitindo o afrouxamento das amarras e a liberação dos fragmentos de nós, submersos por trás de repetidas palavras. Na aparente banalidade discursiva repousa o afeto deslocável, em cujo nó o analista se suporta, completamente causado.
Admitir o “isso não é comigo”, frente à ilusão do desejo de ser amado, é a causa que inaugura um novo dispositivo em Freud, abrindo espaço para um campo aonde a trama de um afeto poder ser desfeita, para ser novamente resignificada. Ocupar lugar de resto de um desejo não realizado é a arapuca chamada analista, que a repetição morderá na transferência, em seu resto de eficácia. O que ele não pode ignorar - enquanto suposição de uma marca desejável - é o espaço que se ocupa sorrateiramente, suportando desde o início o vazio ao fim da estrada. Disso depende o resultado de uma análise.
Pintura de Tarsila do Amaral