5 de ago. de 2010

Quem sou eu?



O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.

Jean-Paul Sartre



O diretor de uma prisão comunica a três detentos a seguinte decisão: “Por razões que não lhes direi, devo libertar um de vós. Para tanto, remeto-os à seguinte prova: tens aqui cinco discos, três brancos e dois pretos. Sem dizer qual deles terei escolhido, fixarei em cada um de vós um disco fora do alcance do olhar. O primeiro a poder concluir, com base na lógica, sobre sua própria cor, será livre.” O diretor coloca um disco branco nas costas de cada um dos presos.

Após um certo tempo, os três dão juntos alguns passos na direção da porta, com base na seguinte lógica: eu sou branco e eis como sei. Se eu fosse um preto, cada um deles pensaria: se eu fosse um preto também, o terceiro concluiria que é branco, uma vez que só existem dois pretos. A lógica parecia perfeita se não fosse a expectativa em relação ao movimento do outro, que resulta em simultânea hesitação. Como elemento externo que interfere no processo lógico, a dúvida reintroduz em cada um dos sujeitos a questão.

A ambigüidade lógica revela uma dependência à estrutura temporal, que possibilita três momentos de evidência daquilo que não se vê: tempo de olhar, tempo de compreender e tempo de concluir. A asserção sobre si depende da reciprocidade e a equivalência do tempo próprio de ambos, enquanto a certeza só se confirma na precipitação. A conclusão precipitada de um dos três, depois da segunda hesitação, é o que permite a possibilidade de ultrapassar as portas da prisão.

É por meio desse sofisma que Lacan quer tomar o ato que gera certeza como sendo aquele que se dá no “só depois”. Ao mesmo tempo nos fazer pensar que a busca pela verdade só se atinge através dos outros. A inadequação em se afirmar como “eu sou” se inicia pelo que se sabe que não é, para em seguida poder afirmar o que se é e correr o risco de não ser. Funda-se aqui a causalidade psíquica por meio da identificação como fenômeno irredutível, sujeito a metamorfose na presença do semelhante.

As Meninas - Velázquez, 1656.