
"Não estou doente, estou partida. Mas me sinto feliz por continuar viva enquanto puder pintar."
Frida Kahlo
Recusar fragmentos do mundo externo e fantasiar não é privilégio da loucura, mas tarefa de um ego constantemente ameaçado por aspectos insuportáveis da realidade. Lançar mão de objetos de forma seletiva e em torno deles construir uma noção de unidade exige do ego a operação da recusa de outros tantos, cuja percepção faltante propositalmente lhe escapa. Mas que continuarão agindo à revelia desta ordem.
Alguns objetos tornam-se privilegiados neste trabalho de distinção e seleção, adquirindo especial destaque. Sua função é preservar a extinção do objeto perdido de forma traumática, servindo para recobrir a percepção da falta, dando a ilusão de preenchimento como uma impressão visual que incide sob o ponto cego da retina frente à imagem. O horror da falta ergue um monumento a esta imagem, como um substituto que triunfa e protege contra as ameaças.
A esse objeto destacado Freud vai dar o nome de “fetiche” e sobre ele estabelece a noção de uma falta original, cujo trauma visual é irreparável. A instituição deste objeto ocorre pela interrupção da memória frente ao trauma e o desvio do olhar para o ponto mais próximo. Pés, sapatos e peças de roupa íntima são exemplos de objetos que cristalizam no olhar frente ao instante em que a mulher pode ser vista em sua genitália, como acabada. A satisfação que estes objetos produzem é proporcional à dificuldade de lidar com o que eles encobrem.
O susto à vida que o órgão genital feminino produz serve de metáfora para o restante dos disfarces que produzimos vida afora. O limite entre a loucura e a sanidade opera no registro da falta e suas formas de representação, com os diferentes modos de contorno do feminino enquanto ausência de uma marca. O ajuste que se exige da realidade depende de uma atitude fetichista frente à castração, funcionando ao mesmo tempo como aceitação e recusa do irremediável.