27 de jul. de 2010

O chiste



"... e que você descubra que rir é bom mas que rir de tudo é desespero."

Vitor Hugo


Uma das afirmações vitoriosas do ego e seu triunfo sobre o sofrimento está na capacidade de transformar o drama em riso. Não resignado, mas rebelde, o riso se afirma contra a crueldade das circunstâncias reais, produzindo uma economia de gastos em relação ao sofrimento psíquico.

O chiste, liberado das usuais regras de regulação, alcança na liberdade estética o juízo lúdico, não requerendo do objeto nenhuma relação de garantia. Sem precedentes e agindo a revelia, o significado engana por instantes, dizendo tudo o que tem a dizer sem se preocupar com o sentido. Não reside no pensamento ordenado, mas na possibilidade de ser efeito de uma expressão livre.

Condensação e deslocamento, tal como nos sonhos, são mecanismos verificáveis na execução de um chiste. O uso múltiplo de uma mesma palavra ou a evocação de um significado ao outro, por similaridade, ou ainda o duplo sentido combinando com o deslocamento, são truques que fazem do chiste uma surpresa advinda de um ato repleto de improvisos.

A brevidade com que o chiste é praticado e a sutileza empregada nos deslocamentos é o que garante sua qualidade e eficácia. Seu conteúdo sexual cria disfarces contra a agressividade, e sua prática manifesta uma rebelião profunda e duradoura contra a compulsão da lógica e da realidade.

Diferente dos sonhos contudo, Freud destaca em seu artigo de 1905 (Os chistes e sua relação com o inconsciente - Obras completas – Volume VIII), o chiste tem como precedente a presença de um outro, sem o qual ele não alcança seus objetivos. Para sonhar não necessitamos de companhia, mas para rir é preciso a produção do laço social como fonte de prazer e garantia.

Tela de Giuseppe Arcimboldo - Legumes em uma tijela ou jardineiro (1572)