Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
Hilda Hilst
PERGUNTAS SEM RESPOSTA
A pergunta sobre uma ciência que inclua a psicanálise, ou mesmo de uma psicanálise que se pretenda ciência, é respondida por Lacan com a questão seguinte, que permanece desde sempre sem resposta: em que está o analista autorizado? Confundida por reproduzir muitas vezes os ecos de uma prática religiosa, a discussão sobre a praxis psicanalítica esbarra no cômico, recaindo necessariamente no impasse e expondo-se obrigatoriamente a suspeitas embaraçosas.
Os quatro conceitos fundamentais servem de alerta para o reconhecimento do que está em jogo nesta experiência que alguns sujeitos tomam parte. O primeiro deles, o inconsciente, conduz ao que se apresenta como efeito de um significante para o outro, numa cadeia deslizante a alienada, como quem fala e não sabe. Como puro efeito do significante e se estruturando como linguagem, o inconsciente pulsa de forma temporal, fazendo história.
O segundo conceito, a repetição, une tiquê e automaton no encontro marcado e repetido, deixando atrás de si, a cada repetição, um real que escapa. O que se repete é sempre o que se produz por acaso, cujo sentido lhe cabe exato. Comandando as atividades, a repetição demanda o novo e se volta para o lúdico, como o carretel na beira do berço, na presença do objeto perdido e reencontrado. A repetição é o recurso para lidar com a falta e a sua ocultação pré-determinada.
A transferência, como terceiro dos conceitos, fala da enganação do amor e da pulsação que a ela se alia. A arte de escutar unida ao amor endereçado a quem supostamente sabe, permite o testemunho de uma perda radical sob a rubrica de um psiquismo afetado. A transferência, como pivô de tudo o que acontece no trabalho analítico, persuade o outro acerca da completude, para desmascarar a farsa e o desconhecimento daquilo que falta e nada recobre.
A pulsão, como quarto conceito de base, permanece como uma teoria não demarcada e de constância inalterada. Comportando idéias nunca antes descritas - como a topologia da borda, que permite pensar o privilégio dos orifícios corporais, acrescida de um novo estatuto da ação sempre retroativa, sem deixar de levar em consideração a dissociação entre o alvo e o objeto - o conceito de pulsão manda o sujeito cartesiano às favas, mantendo as perguntas que ele faz sem respostas.
Pintura de Lucian Michael Freud
