
É preciso insistência para se manter de pé a pergunta que volta e meia retorna: para que serve afinal a psicanálise? Qual é a sua função?
Exaurida a sua força subversiva, contaminada por novos modos de alienação, ela se vê confundida com terapias alternativas, seduzida por estratégias normativas de exorcismo da infelicidade e rendida aos “novos sintomas” da modernidade.
A psicofarmacologia, enquanto isso, investe na classificação de comportamentos e na criação de pílulas da felicidade, que mudam de cor e nome. A organicidade simplista - cuja base cria sujeitos em série, expostos aos mesmos sintomas – retira de cena a palavra, mantendo o sofrimento como fonte de angústia e vergonha.
A análise é árdua e faz sofrer. No entanto, frente ao peso das condutas obrigatórias e das aparências a serem salvas, parece não haver muita escolha. A razão que vacila no interior de si mesma exige uma outra explicação. O escândalo não reside em encontrar uma razão para o comportamento sexual, mas em entender que a negação de uma fantasia pode ser tão mutilante quanto a negação de uma violência real.
A relação social, como o negativo da sexualidade, só o é na medida em que positiviza o homem, levando em conta o componente pulsional como parte de sua constituição. Se um trauma real não é menos mortífeto do que um sofrimento psíquico, a psicanálise existe como um avanço da civilização sobre a barbárie. O homem não se reduz a um compêndio de normas biologizantes, e a psicanálise existe para restaurar nele a liberdade por meio da fala.