23 de jul. de 2010

Uma rosa meditativa



Não te aflijas com a pétala que voa, também é ser deixar de ser assim..."
Cecília Meireles em "O motivo da rosa"

O sonho é a base sob a qual as inscrições significantes se ocultam e se revelam, numa passagem privilegiada para o inconsciente como formação. Como um campo aonde o sentido se prende de forma não linear a diferentes conexões, elementos da engrenagem estabelecem novas relações. A massa de pensamentos submetida à pressão, de maneira retorcida, fragmentada e rejuntada, funda, com a psicanálise, uma estrutura lógica desde sempre prenhe de interpretação.

Erramos, nos ensina Freud, se queremos compreendê-lo pelo valor de imagem, usando seu simbolismo de forma isolada, como elemento específico de decifração. As imagens dos sonhos, para a psicanálise, adquirem valor de signos engendrados ao processo e não de significações dadas de antemão. A transcrição dos pensamentos oníricos, formatada pelo inconsciente, como uma tela de pintura, se faz por composição de metáforas conjuntas, cuja aparência e reconhecimento depende do deciframento das distorções.

O trabalho significante, em seus mecanismos de junção onírica, não se resumem a um conjunto anárquico, alheio e misterioso, entregue aos deuses ou às formas mitológicas de apreensão. São processos possíveis de serem sistematizados através das leis de deslocamento e condensação. Pela condensação, os elementos se fundem a partir de uma representação única e convergente, enquanto o deslocamento inverte os valores e traveste o sentido, produzindo a equivocação.

O sonho tem a estrutura de um enigma a ser soletrado a partir das ligações. A letra – fundada na existência do traço e sua repetição - decide o destino da representação. Abrindo a possibilidade do sujeito, frente ao objeto, estruturar uma representação que não coincide com o real da coisa, mas como um acidente que desnaturaliza esta relação. Sujeito e linguagem são campos abertos, cuja incerteza fundamental de signos enganosos permite estranhas e libertárias formas de criação.

Pintura: Rose Meditative de Salvador Dali