O que não tem governo nem nunca terá...
"Só acabarei esse sonho inédito e louco no dia da minha morte"
Selarón, artista chileno
A família, como organização social que reivindica pressupostos naturais, esbarra na insuficiência do fator genético para sustentar sua legitimidade. Seus vínculos, que se utilizam da linguagem como suporte, possuem um alto grau de plasticidade, com condicionamentos e arranjos que dependem predominantemente de fatores culturais, em detrimento de uma lógica biologizante e determinista.
Subversiva a qualquer fixidez instintiva, a família adquire o caráter de uma organização afetiva com dinamismo próprio, sujeita à novos formatos e novos conflitos, decorrentes do imprevisivel que advirá. A causalidade psíquica - que tem no fator inconsciente o elemento chave de decifração - passa a ser a principal fonte de produção do condicionamento cultural, estabelecendo o grau de perpetuação do que se reconhecerá como legítimo.
Foi por intermédio da análise das neuroses que Freud lançou luz sobre o complexo familiar, reconhecendo nas fixações e repetições a formatação de uma estrutura social que tem na sexualidade sua fonte de ligação mais primitiva. A relação com o conhecimento, a forma de organização afetiva e a experiência com o real colocam o sexo e sua relação com a família no centro de uma disputa permanente entre a realidade e a fantasia.
A filiação, como ponto nevrálgico dessa disputa, passa a ser investigada pelo pai de uma nova ciência, que adota novas diretrizes para o seu pensamento, a partir da premissa fantasística. Filiação e adoção fazem parte do mesmo nó, que tributa à família o peso da indistinção, presentes na ausência e na busca por garantias. A in-certeza paterna que não encontra apoio no campo da biologia, suspende todas as demais garantias exigidas. A família torna-se um fato não conformado à suficiência de nenhum positivismo.
Quadro de Selarón, famoso por sua escadaria da Lapa e por pintar mulheres grávidas.

