15 de nov. de 2010

O que não tem governo nem nunca terá...




"Só acabarei esse sonho inédito e louco no dia da minha morte"

Selarón, artista chileno



A família, como organização social que reivindica pressupostos naturais, esbarra na insuficiência do fator genético para sustentar sua legitimidade. Seus vínculos, que se utilizam da linguagem como suporte, possuem um alto grau de plasticidade, com condicionamentos e arranjos que dependem predominantemente de fatores culturais, em detrimento de uma lógica biologizante e determinista.

Subversiva a qualquer fixidez instintiva, a família adquire o caráter de uma organização afetiva com dinamismo próprio, sujeita à novos formatos e novos conflitos, decorrentes do imprevisivel que advirá. A causalidade psíquica - que tem no fator inconsciente o elemento chave de decifração - passa a ser a principal fonte de produção do condicionamento cultural, estabelecendo o grau de perpetuação do que se reconhecerá como legítimo.

Foi por intermédio da análise das neuroses que Freud lançou luz sobre o complexo familiar, reconhecendo nas fixações e repetições a formatação de uma estrutura social que tem na sexualidade sua fonte de ligação mais primitiva. A relação com o conhecimento, a forma de organização afetiva e a experiência com o real colocam o sexo e sua relação com a família no centro de uma disputa permanente entre a realidade e a fantasia.

A filiação, como ponto nevrálgico dessa disputa, passa a ser investigada pelo pai de uma nova ciência, que adota novas diretrizes para o seu pensamento, a partir da premissa fantasística. Filiação e adoção fazem parte do mesmo nó, que tributa à família o peso da indistinção, presentes na ausência e na busca por garantias. A in-certeza paterna que não encontra apoio no campo da biologia, suspende todas as demais garantias exigidas. A família torna-se um fato não conformado à suficiência de nenhum positivismo.

Quadro de Selarón, famoso por sua escadaria da Lapa e por pintar mulheres grávidas.

4 de nov. de 2010

FAMÍLIA




Família! Família!
Papai, mamãe, titia
Família! Família!
Almoça junto todo dia
Nunca perde essa mania...

Arnaldo Antunes



O uso da linguagem, que permite às relações sociais um alto grau de plasticidade, cria a família. A economia e o movimento responsáveis por esta dinâmica fornecem às relações sociais uma variedade infinita de comportamentos adaptativos e diferentes reações à um mesmo valor circunscrito. A existência da família - que depende da comunicação como princípio - revela uma obra cultural de valor fundante e com características bastante específicas.

Novas dimensões de realidade social e vida psíquica, introduzidos pela família, criam, a cada novo núcleo que se forma, uma nova estrutura. Compostas de hierarquias e órgãos privilegiados de coerção - em cujo campo se fundam as bases da formação moral – a família se institui por modos de organização da autoridade, com leis de transmissão ligadas à dimensão da herança e sucessão.

Sua prevalência na educação – baseadas na repressão e aquisição do arsenal materno-linguístico – faz com que ela seja responsável pelos processos fundamentais do desenvolvimento psíquico. No lugar de ser reduzida a um fato biológico ou um elemento puramente teórico, a família supera os limites da objetividade, nos permitindo operar com a noção radical de causalidade psíquica.

É com base na família que os paradoxos se fundam e a diversidade esbarra nos limites do impossível. A família torna-se uma invenção cuja representação nos atinge e cuja constância se confunde com uma hipótese a ser construída. Sua estabilidade provisória, no entanto, produz efeitos definitivos.

Eliane Martins

Foto da família de Freud - 1876