17 de ago. de 2010


ILUSÃO



Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não pode nos dar, podemos conseguir em outro lugar.


Freud em "O futuro de uma ilusão", 1927

O desejo de uma construção intelectual capaz de solucionar todos os problemas da existência, não deixando nenhuma pergunta sem resposta, opera como ideal capaz de nos colocar a salvo da dúvida ou da contradição. A psicanálise, ao lidar com os aspectos da mente humana, toma essa busca interminável por consolo e proteção como parte das exigências emocionais e como alvo particular de suas investigações.

O adulto, na sua confrontação com o mundo, não prescinde de proteção, transferindo do pai para a religião ou para a ciência a construção de um saber capaz de lhe dar garantias, livrando-o do abandono e da incerteza, ou da angustia como condição. O respeito ao pai, transferido para o social, mantém a recompensa e segurança como prêmio pelo cumprimento das exigências éticas, repetindo o estado original de submissão.

A manutenção de alguma verdade que funcione como ilusão tem como contraponto a ciência, que se sustenta na provisoriedade dos construtos hipotéticos, não se sujeitando a nenhum limite ou restrição. Ao ser premiada pela efetividade no combate a diferentes formas de sofrimento, a ela é conferido um caráter normativo e consolador, correndo o risco de ser apropriada pelo campo da verdade e ser confundida com a religião.

A luta do espírito científico contra o pensamento religioso é o que permite o trabalho honesto de investigação. A razão, como garantia de elo entre os homens e progresso da ciência, exige a renuncia de garantias advindas da convicção. Negligenciar o inesperado e a incompletude indispensável ao avanço do pensamento é permanecer no infantilismo. Negar a existência da verdade, por outro lado, é obturar o pensamento e a luta permanente no campo da razão.


Foto de Fernando Rabelo, Lavador de vidros, Av. Rio Branco

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