18 de ago. de 2010





UM MOMENTO DE PAUSA


"Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o consertar desconcertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo."

Guimarães Rosa em Grandes Sertões: Veredas



Como é possível fazer a distinção entre uma angústia real, como reação a um perigo visível e justificável, e uma angústia neurótica, enigmática e despropositada? Se desta distinção depende a escolha da intervenção clínica adequada, a imprecisão na distinção entre uma coisa e outra é a mesma que nos leva ao problema da fonte, se interna ou com base na realidade.

A questão sexual, desde sempre interessando à psicanálise, localiza o sofrimento neurótico no ego, cujas escolhas perversas são imperdoáveis. Se esforçando para deter o movimento de um id desenfreado - cujo prazer se presta a qualquer laço - e um superego feroz, que pune a qualquer deslize covarde, o ego tropeça, se esforça e muitas vezes se despedaça.

Como se não bastasse, descobre Freud mais tarde, as forças que brigam no interior da mente se fundem e se confundem com um estranho e despudorado prazer atrelado à pulsão de morte. A ameaça que vem de dentro é tão trágica quanto a que vem de fora. As ligações de afeto que o sujeito produz são mascaradas por deslocamentos de toda forma, não pode ser compreendida pela lógica nas quais se aloja. O inconsciente une experiência a expectativa com fusões de outra ordem.

A noção de perigo, derivada da experiência traumática, será sempre singular e inexplicável. Somente o trabalho de desfusionamento das conexões “lógicas” pode permitir uma outra relação com a realidade. A repetição da experiência traumática e o estado afetivo paralisante, aparentemente inadequado para os propósitos da realidade, faz apelo permanente ao sujeito diante do sofrimento e a necessidade de algum enquadre. A idéia do que é normal e o que é patológico, quando se trata da angustia, requer momentos de pausa.

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