13 de ago. de 2010

Só o esquecimento condensa




Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.


Mário de Andrade em Eu sou Trezentos...




O lugar que ocupa a interpretação dos sonhos na teoria freudiana é completamente distante do que supõe a crença popular e o misticismo. Algumas fórmulas nunca apresentadas por Freud, no entanto, passaram a fazer parte do imaginário popular e se confundem ainda hoje com a técnica psicanalítica. Para marcar a distinção entre uma coisa e outra, seguimos Freud numa de suas elaborações acerca da utilização do trabalho onírico como instrumento de investigação das forças psíquicas.

O sonho, como qualquer outra comunicação feita em análise, exige a transformação do que é manifesto em latente e a explicação de como o latente se tornou manifesto, demandando sentido. Preocupar-se o mínimo possível com o manifesto e investigar como o latente se tornou manifesto é o trabalho teórico e interpretativo que se faz a dois, no espaço analítico. Um sonho, para a psicanálise, jamais pode ser interpretado fora da transferência, entendido como espaço privilegiado que dá ao material onírico o colorido e a intensidade devida.

As associações que decorrem na exposição de um sonho têm como função preencher as lacunas e lançar luzes sobre diferentes partes, tornando-o inteligível. Quando a associação sofre interrupção o analista completa, com a legitimidade que lhe confere o acesso à biografia. A resistência para interpretar pertence à origem do material, que varia de lugar para lugar dentro de um mesmo sonho. Sendo responsável por lacunas, obscuridades e confusões que impedem o desvendamento completo do material reprimido.

O sonho encontra-se no mesmo registro dos sintomas e delírios. Como na psicose, é pelo afastamento do mundo real que ele revela o intolerável, podendo produzir angústias tal como a vida em vigília. São três as fontes que interferem e colaboram com o conteúdo onírico: os estímulos externos que surgem durante a sua feitura, os interesses diurnos que se mantém sob latência e o material reprimido, cuja satisfação pulsional foi impedida. O conteúdo do sonho, nos ensina Freud, é inesgotável e parcialmente incompreensível. Tal como a anatomia humana, ele possui umbigo.



Aleijadinho, Cristo no Horto das Oliveiras, na Via Sacra de Congonhas

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