
Saio de meu poema
como quem lava as mãos.
Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.
Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;
talvez como a camisa
vazia, que despi.
João Cabral de Melo Neto - Psicologia da composição
O retorno a Freud, do qual Lacan se faz arauto, se situa no questionamento da verdade, sem a qual não é possível discernir o rosto da máscara. A verdade, que se confunde com a realidade e se apresenta mascarada pela cautela, exibe, no mais ligeiro sinal de tropeço, o enigma que a embaraça. O fracasso da fala produz o desmascaramento da verdade contida na palavra aprisionada.
A verdade já não passa mais pelo pensamento, mas pelas coisas tomadas ao pé da letra. Na falha estreita demais para suportar o fingimento, na nuvem inacessível do sonho, no fascínio imotivado ou no impasse sedutor do absurdo, a verdade fala. A pergunta sobre quem fala lá onde “isso” sofre não se confunde mais com a expressão natural e a informação, mas exige reconhecimento de leis sobre as quais a linguagem se acomoda.
Na distinção entre significante e significado o analista se introduz, como parte da desordem. Se a sincronia significante garante o emprego exato do elemento, por sua diferenciação aos demais, a diacronia do significado reage historicamente, remetendo a outras significações que se engendram na captação da realidade. Alguma coisa excede e apenas o significante garante a coerência teórica do conjunto, distinguindo signo de linguagem.
Freud responsabiliza o “eu” pela desordem, que sustenta a pseudo-totalidade do organismo, amalgamando a hiância nas relações naturais. A primeira resistência à psicanálise é a instalação de um novo discurso, que substitui a compreensão pelo mal entendido e pela garantia advinda do impasse. O eu como noção operacional já não se presta mais a identificações imaginárias, é por ser despedaçado que ele toma a palavra.
O sintoma como função significante se distingue do que é natural para o saber médico, estabelecendo uma práxis degradada, que não atende às exigências de cura e felicidade. Não se trata de um pacto para além das razões do argumento, cujas manobras de cumplicidade dual visa obter efeitos de sucesso. Trata-se do drama patético de uma simbolização desnorteada, uma dívida simbólica que produz inadequação e denuncia a fraude do pensamento mágico.
Tela - Morte (Iberê Camargo)
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