O sujeito da psicanálise
Em que base se fundamenta o sujeito da psicanálise, dividido ao meio por uma barra? O simples reconhecimento do inconsciente como campo onde o sujeito se apresenta, não é um fato empírico senão pela via do paradoxo: como é possível reconhecer o que se dará sempre depois do fato? Como é possível saber o que se é quando ainda não se está?
O sujeito histórico em Descartes, que ancora sua existência no pensar, faz-se correlato da ciência, como inaugurado e reforçado por ela. O "penso, logo existo" coloca o sujeito numa nova dimensão. No entanto, a divisão que se instala, com Descartes, entre o saber científico e a verdade, inclui doravante a realidade psíquica, um campo aonde o sujeito também “é” mas nem sempre “sabe”. Descoberto por Freud, este saber sobre o inconsciente se vincula ao científico como marca não contingente, mas necessária.
A epistemologia não explica plenamente a existência do sujeito, é o que a descoberta do inconsciente vem nos mostrar. O princípio da realidade, que encontra explicação para os fenômenos em toda a parte, discorda da realidade psíquica, cujo conteúdo também produz efeitos na realidade. Não somos máquinas, a dialética freudiana exige de nós a verificação de um sujeito tomado por uma divisão constitutiva e incontornável.
A questão sexual, como a base de tal discordância, não encontra saída pela via da psicologização do sujeito, incapaz de responder de forma antecipada. A ciência, ao impor sua bateria de significantes – fundamentada em diagnósticos precisos e respostas exatas - exige que eles tenham prevalência, assegurando-se nos efeitos que a significação produzirá. A lógica moderna é uma tentativa de suturar o sujeito da ciência, como um correlato, antinômico e exato. O sujeito, tal como quer a psicanálise, não se sujeitará.
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